terça-feira, 19 de julho de 2022

O NASCIMENTO DO PATRIOTA

 



Por Ernst Kantorowicz

 

Seria erróneo entreouvir, nessa sinfonia de teologia, filosofia escolástica e direito, a expressão do humanismo, ou subestimar a influência da literatura clássica no desenvolvimento das ideologias ocidentais de pátria. Nada seria mais fácil que extrair diversas passagens relevantes dos escritos de Petrarca, Boccaccio, Salutáti, Bruni e outros, e demonstrar como as ideias cristãs secularizadas de martyr e caritas eram acompanhadas, daí em diante, pelas noções clássicas de heros e amor (patriae). Mas seria supérfluo arrolar outras fontes aqui apenas para provar o que é auto-evidente: o humanismo exercia alguns efeitos facilmente reconhecíveis sobre o culto da pátria e sobre a autoglorificação nacional, e a heroificação final do guerreiro que morria pela pátria era uma conquista dos humanistas. Não há nenhuma dúvida de que o amor patriae romano — ressuscitado, cultivado e glorificado de modo tão passional pelos humanistas — moldou a mentalidade secular moderna.

 

REFERÊNCIA:
KANTOROWICZ, Ernst H. Os dois corpos do rei: um estudo sobre teologia política medieval. Cid Knipel Moreira (trad.). São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 155-156.

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