domingo, 25 de outubro de 2015

COMENTÁRIOS AO DISCURSO DA SERVIDÃO VOLUNTÁRIA DE ÉTIENNE DE LA BOÉTIE






Por Luiz Carlos Silva

Étienne de La Boétie afirma haver três tipos de tiranos:
1°) os que o obtêm o poder pela força das armas;
2°) aqueles que o herdam por sucessão da raça; e
3°) os que chegam ao poder por eleição do povo.

Os que obtêm o poder pelo direito da guerra, agem como em terra conquistada; quanto aos reis, nascidos e criados no seio da tirania, consideram os povos a eles submetidos como servos hereditários, têm todo o Reino e seus súditos como extensão de sua herança. Quanto ao eleito pelo povo, não nos enganemos: ao se ver alçado a um posto tão elevado, tão alto - "lisonjeado por um não sei quê que chamam de grandeza" - toma a firme resolução de não abrir mão da rês pública. "Quase sempre considera o poderio que lhe foi confiado pelo povo como se devesse ser transmitido a seus filhos".

Para La Boétie, é essa ideia funesta que o faz superar todos os outros tiranos em vícios de todo tipo e até em crueldades.

Para consolidar a nova tirania e aumentar a servidão, afastam toda e qualquer ideia de liberdade presente no espírito do povo. Em resumo, independente de como chegam ao poder, o espírito de quem governa subjugando as massas é quase sempre o mesmo: os conquistadores vêem o povo como uma presa a ser dominada; os sucessores como um rebanho que naturalmente lhes pertence e, por fim, os eleitos tratam-no como bicho a ser domado.

O trecho abaixo exemplifica que, independente da forma de governo, a tirania é sempre funesta ao povo:

“Assim, para dizer toda a verdade, encontro entre eles alguma diferença, mas não vejo por onde escolher. Sendo diversos os modos de alcançar o poder, a forma de reinar é sempre idêntica. Os eleitos procedem como quem doma touros; os conquistadores como quem se assenhoreia de uma presa a que têm direito; os sucessores como quem lida com escravos naturais" (LA BOÉTIE).

Salienta, ainda:

“Para que os homens, enquanto neles resta vestígio de homem, se deixem sujeitar, é preciso uma das duas coisas: que sejam forçados ou iludidos. Iludidos, eles também perdem a liberdade; mas, então, menos frequentemente pela sedução de outrem do que por sua própria cegueira. O povo parece esquecer que possui direitos e que é a base do governo, e essa alienação é tão profunda que se torna quase impossível despertá-lo para a realidade. Serve tão mansamente e de tão bom grado que, ao observá-lo no torpor, cegueira e loucura da servidão, poderia-se dizer não que o povo tenha perdido totalmente a liberdade, mas que nunca a conheceu verdadeiramente”.

Étienne enfatiza: “No início serve-se contra a vontade e à força; mais tarde, acostuma-se, e os que vêm depois, nunca tendo conhecido a liberdade, nem mesmo sabendo o que é, servem sem pesar e fazem voluntariamente o que seus pais só haviam feito por imposição. Assim, os homens que nascem sob o jugo, alimentados e criados na servidão, sem olhar mais longe, contentam-se em viver como nasceram; e como não pensam ter outros direitos nem outros bens, além dos que encontraram em sua entrada na vida, consideram como sua condição natural a própria condição de seu nascimento”.

Uma forte e talvez primeira razão da servidão voluntária é o costume ou hábito. Através dele se ensina a servir e a ser escravizado. A perpetuação dos mesmos acontecimentos e atitudes desagua naquela premissa popular "sempre foi assim". E à medida que o tempo passa, leva o povo não somente a engolir, pacientemente, os germes venenosos que induzem à escravidão, mas até mesmo a desejá-la: "pois por melhor que seja, o natural se perde se não é cultivado, enquanto o hábito sempre nos conforma à sua maneira, apesar de nossas tendências naturais."

Em assim sendo, pode-se nascer servo, como no período de Étienne ou das monarquias antigas e ainda existentes, ou se acomodar e sujeitar-se ao discurso midiático estipulado pelas falsas democracias atuais. Dessa sujeição decorre naturalmente a segunda razão da servidão voluntária: a Covardia! Sob a tirania (mesmo que disfarçada), inevitavelmente os homens se acovardam e se escravizam.

La Boétie preconiza: “Os escravos não têm ardor nem constância no combate. Só vão a ele como que obrigados, por assim dizer, embotados, livrando-se de um dever com dificuldade; não sentem queimar em seu coração o fogo sagrado da liberdade, que faz enfrentar todos os perigos e desejar uma bela e gloriosa morte que nos honra para sempre, junto aos nossos semelhantes; entre os homens livres, ao contrário, é a discussão, polémica, cada qual melhor, todos por um e cada um por todos; sabem que colherão uma parte igual no infortúnio da derrota ou na felicidade da vitória; mas os escravos, inteiramente sem coragem e vivacidade, têm o coração baixo e mole, e são incapazes de qualquer grande ação. Disso bem sabem os tiranos; assim, fazem todo o possível para torná-los sempre mais fracos e covardes. Artimanha dos tiranos: bestializar seus súditos!”

O poder seja de qualquer época, sempre disponibiliza instrumentos poderosos de alienação popular. A máxima do pão e circo sempre se revigora. À proporção que a sociedade parece evoluir, sofisticam-se os mecanismos para a manipulação da vontade, comportamento e colaboração voluntária ao sistema governamental. Basta observar que a globalização e a Internet muito mais escravizam e servem ao poder constituído, do que comunicam para a liberdade e iluminam verdadeiramente as consciências. O povo não percebe que o poder, através dos tempos, se camufla de forma camaleônica em mantenedor da tirania, a fim de adormecê-lo. E para transformá-lo em súdito da escravidão, disponibilizam-se todo e qualquer meio de entretenimento: drogas, shows, prostituição, jogos, carnaval, enfim, toda sorte de apelos para o entorpecimento da mente. Torna-se fácil manipular e não há necessidade de se criar mecanismos mais inteligentes para precaver-se contra o povo ignorante e miserável, fácil e bestialmente entretido e domesticado com tolices vãs.

A citação abaixo, assustadoramente nos remete à constatação de que as semelhanças do discurso do século XVI aos nossos dias não é mera coincidência:

“Os tiranos romanos foram longe” (na política do pão e circo), “festejando frequentemente os homens das decúrias” (homens do povo, agrupados de dez em dez, e alimentados às custas do tesouro público), “empanturrando essa gente embrutecida e adulando-a por onde é mais fácil de prender, pelo prazer da boca. Por isso, o mais instruído dentre eles não teria largado sua tigela de sopa para recobrar a liberdade da República de Platão. Os tiranos distribuíam amplamente o quarto de trigo, o sesteiro de vinho, o sestércio” (bolsa-família romana); “e então dava pena ouvir gritar: Viva o Rei! Os broncos não percebiam que, recebendo tudo isso, apenas recobravam uma parte de seu próprio bem, e que o tirano não teria podido dar-lhes a própria porção que recobravam se antes não a tivesse tirado deles mesmos. O que hoje apanhava o sestércio, o que se empanturrava no festim público abençoando Tibério e Nero por sua liberalidade, no dia seguinte, ao ser obrigado a abandonar seus bens à cobiça, seus filhos à luxuria, sua própria condição à crueldade desses magníficos imperadores ficavam mudos como uma pedra e imóvel como um tronco”.

Torna-se mister ressaltar que uma nação possui história, memória e tradição. E está enraizado na tradição brasileira o orgulho de ser um povo pacífico. Entretanto, a violência atinge índices alarmantes, principalmente entre os jovens. Desta forma, a aptidão para a paz não pode ser confundida com a mansidão. Sob pena de nossa sociedade incorporar a subserviência, ser facilmente iludida e enfeitiçada; e transformar-se em uma massa de ignorantes! Percebe-se hoje um paradoxo, pois a violência é efeito (e não causa) da servidão voluntária.

Reportamo-nos sobre a terceira razão da servidão voluntária, a Participação na Tirania.

La Boétie aponta quem são os interesseiros que se deixam seduzir pelo esplendor dos tesouros públicos sob a guarda do tirano, os que, em conluio, garantem e asseguram seu poder: “são sempre quatro ou cinco homens que o apoiam e que para ele sujeitam o país inteiro. Sempre foi assim: cinco ou seis obtiveram o ouvido do tirano e por si mesmos dele se aproximaram ou então, foram chamados para serem os cúmplices de suas crueldades, os companheiros de seus prazeres, os complacentes para com suas volúpias sujas e os sócios de suas rapinas. Tão bem esses seis domam seu chefe que este se torna mau para com a sociedade, não só com suas próprias maldades, mas também com as deles. Esses seis têm seiscentos que debaixo deles domam e corrompem, como corromperam o tirano. Esses seiscentos mantêm sob sua dependência seis mil, que dignificam, aos quais fazem dar o governo das províncias ou o manejo dos dinheiros públicos, para que favoreçam sua avareza e crueldade, que as mantenham ou as exerçam no momento oportuno e, aliás, façam tanto mal que só possam se manter sob sua própria tutela e instar-se das leis e de suas penas através de sua proteção. Grande é a série que vem depois deles. E quem quiser seguir o rastro não verá os seis mil mas cem mil, milhões que por essa via se agarram ao tirano, formando uma corrente ininterrupta que sobe até ele. Daí procedia o aumento do poder do senado sob Júlio César, o estabelecimento de novas funções, a escolha para os cargos - não para reorganizar a justiça, mas sim para dar novos sustentáculos à tirania. Em suma, pelos ganhos e parcelas de ganhos que se obtêm com os tiranos chega-se ao ponto em que, afinal, aqueles a quem a tirania é proveitosa são em número quase tão grande quanto aqueles para quem a liberdade seria útil. Que condição é mais miserável que a de viver assim, nada tendo de seu e recebendo de um outro sua satisfação, sua liberdade, seu corpo e sua vida! Mas eles querem servir para amealhar bens. O que torna um amigo seguro do outro é o conhecimento de sua integridade. Entre os maus, quando se juntam, há uma conspiração, não uma sociedade; Eles não se entre-apoiam mas se entre-temem. São cúmplices”.


Quero justificar a longa citação pelo seu teor de atualidade, quer dizer, todo sistema de poder se aglutina em torno de uma rede de servidão. Se o seu princípio se sustentar na tirania, tornar-se-á frágil por natureza, de onde, a todo instante assomam-se os escândalos, pois o tirano não tem amigos, não ama nem é amado. Na ilusão de que estamos livres, fundamentam-se os três caminhos que nos levam à servidão (hábito, covardia e participação). Não estamos verdadeiramente livres, mas podemos conquistar a justiça que liberta. Posto que se a servidão voluntária é inerente ao ser, a citação de Aristóteles traz esperança: "A Justiça é um hábito que nunca morre".