sábado, 21 de setembro de 2019

O(S) NASCIMENTO(S) DO CRISTO (UNIVERSAL?)



Estava aqui pensando no seguinte problema:

O edifício do cristianismo trinitário (ou seja, no qual Jesus é Deus), para sua perenidade, carece de que a humanidade jamais descubra a existência de outras civilizações fora da Terra, pois:

Se a Queda ocorreu apenas na Terra, o pecado original daqui não poderia atingir outra(s) civilização(ões).

Se Jesus Cristo foi uma Pessoa de Deus que veio a mundo para livrar a humanidade da Terra de seu pecado original, então o sacrifício Dele não pode livrar a civilização de outro planeta desse pecado (pois ela não é descendência de Adão e não pode estar em falta por algo em que nenhum ancestral se envolveu).

Se outra civilização também incorreu em pecado, também se faz necessário Deus se fazer mortal para lá morrer em expiação pelos pecados daqueles?

Se no sistema de crenças dessa outra civilização Deus também nasceu nesse outro planeta sob a forma de mortal para salvar essa outra civilização do pecado original de lá, seria o mesmo Jesus daqui ou outra Pessoa de Deus? (Lembrando que para o cristão trinitário, Deus é três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo.)

Ademais, quem garante que outra civilização possa ter incorrido em pecado?

E lembrando que todas essas questões têm por base a hipótese de que exista pecado original.

O que me dizem? Qual seria o futuro do cristianismo com a descoberta de uma civilização extraterrestre?

domingo, 15 de setembro de 2019

O BATMAN DE NOLAN E AS 4 MATRIZES PERINATAIS


The creation of Man, por Natalie Lennard 


BATMAN: THE DARK KNIGHT RISES


Por Saindo da Matrix

“Pessoas que são incapazes de se sentirem satisfeitas quando a vida corre tranqüila para elas. Podem até atingir situações materiais e rejeitar, um belo dia, todas essas vantagens por causa de certos escrúpulos imaginários. São pessoas que, em certos casos, se sentem capazes de se consagrar ao bem-estar dos outros, fazendo completa abstração de seus próprios interesses e necessidades vitais. A marca mais forte dessas pessoas não é a exibição de seu sofrimento, mas o convívio com ele. Ele se manifesta numa tendência autopunitiva muito forte, que tanto pode revelar-se como uma grande capacidade de somatização de problemas psicológicos (isto é, a transformação de traumas emocionais em doenças físicas reais), como numa elaboração de rígidos conceitos morais que os afastam do cotidiano, das outras pessoas em geral e principalmente dos prazeres. Sua insatisfação básica, portanto, não se reservaria contra a vida, mas sim contra si próprio, uma vez que ele foi estigmatizado pela marca da doença, já em si uma punição.”

Essa pode ser a descrição psicológica de Bruce Wayne, mas foi retirada de um site de Umbanda, falando das pessoas ligadas à energia da divindade africana Obaluaiê (também conhecido como Omolu ou Omulu).

Esse é o Bruce Wayne dos filmes de Christopher Nolan. E sua doença é o Batman. Obaluaiê se esconde por trás de uma roupa de palha, e seu domínio são as cavernas. Bruce se esconde atrás de uma roupa de morcego, e seu quartel-general é uma caverna.

Assim vemos como os arquétipos dominam nossas mentes desde tempos imemoriais, e seguimos recontando as mesmas histórias, que são NOSSAS histórias por serem parte de nossa estrutura mental. Todos temos um pouco de Luke Skywalker, Han Solo, Coringa, Terminator ou Batman, e nos identificamos com esses personagens em diferentes graus (alguns até perigosamente, como o atirador do cinema). Quem conta uma história está lidando com essa matéria-prima e nos guiando através dos arquétipos, literalmente nos manipulando pra ter um deleite, um prazer, um terror, uma paixão; e o cinema – com sua sala escura, som cristalino e tela gigante, numa experiência pessoal e ao mesmo tempo coletiva – é a melhor mídia para nos transportar para outros níveis de nós mesmos.

Christopher Nolan, seu irmão Jonathan e David S. Goyer sabem como poucos hoje no cinema nos guiar através de nossos próprios labirintos da mente. Eles escreveram a trilogia de Batman no cinema e fecharam com chave de ouro essa série, com “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” (The Dark Knight Rises). Pra mim o segundo filme (“O Cavaleiro das trevas”) continua sendo a obra-prima, o melhor de todos porque se beneficiou da atuação inspiradíssima de Heath Ledger e de um roteiro até então nunca visto. O primeiro filme eu sempre considerei um ótimo início pra o Batman, mas fraco em termos de narrativa e emoção. O terceiro não só conclui de forma brilhante, como ainda resgata a importância do primeiro para a mítica da série. Ou seja, o que antes eram dois filmes separados agora é uma história coesa. O que torna bastante recomendável, caso não tenha visto o primeiro, que o faça para melhor apreciação do conteúdo.

Se você ainda não viu o filme e está em dúvida se deve ver, saiba que ele é do mesmo nível que o segundo. Tem uma abertura ESPETACULAR que me lembra os filmes de James Bond, e que foi filmada em IMAX (pena que não tem no Recife, mas procurei ver no maior telão daqui do estado, no Box Guararapes – sala 6). O som é fantástico! Cada tiro assustava, parecia que tinha sido disparado ali, dentro da sala – e várias vezes olhei ressabiado pra saída de incêndio, paranóico. As atuações estão – como sempre – excelentes, com destaque para Michael Caine (Alfred), que merece uma indicação ao Oscar.

Daqui pra baixo não leia se não viu o filme. Faça um favor a você mesmo e se reserve o direito de ter prazer com o filme. Saber de qualquer coisa daqui de baixo vai ARRUINAR sua experiência. Tenho dito.

O filme é longo, mas tinha espaço pra mais coisa. Por exemplo, vimos como o diretor desenvolveu bem a coisa do cidadão reagindo ao caos que acontecia no segundo filme, mas no terceiro ele quase não aparece. Gotham aqui está menos ativa, e mais superficial. A coisa da Lei Marcial e da “redistribuição” de renda com um “judiciário” de fachada (uma cópia oposta do que prendeu gente sem direito a apelação) podia ter sido mais desenvolvida, assim como o drama dos policiais (sintetizado num brilhante diálogo curto com o Comissário Gordon), mas aí o filme iria pra mais de 3 horas de duração (quem sabe no Blu-Ray?).

Podemos analisar os filmes de Batman através do processo desenvolvido pelo psiquiatra tcheco Stanislav Grof (o Walter Bishop da vida real). Ele desenvolveu um método que permite acessar, através de estados alterados da consciência, toda uma gama de sensações, emoções intensas, reações instintivas que não nos são compreendidas, mas nos são muito familiares. Ele agrupou este processo em 4 matrizes perinatais, que correspondem a processos arquetípicos.

 

1 - A primeira matriz perinatal corresponde à concepção até a contração intra-uterina

Segundo Grof a base biológica desta matriz é a unidade simbólica original do feto com o organismo materno. Não há percepção de fronteira nem diferença entre interno e externo.

No primeiro filme temos a gênese de Batman. Fica claro que Batman é uma criatura gerada pela violência de Gotham City. Gotham City é, pois, sua mãe, e a identificação de Batman com Gotham corresponde à do filho com a mãe em seu estágio intra-uterino. Vemos Gotham/Batman ameaçados, mas a paz retorna ao final.

 

 

2 - A segunda matriz vai do momento da contração até a entrada do canal de nascimento

O início do parto biológico. O feto se sente “expulso do paraíso”. Devido às contrações, o fluxo de sangue diminui, e o espaço fica apertado. Sensações de estar preso, desemparado e culpado são componentes simbólicos das memórias deste estágio. Grof destaca que “uma tríade experiencial típica deste estado é uma sensação de morte, de ficar louco e nunca mais voltar”.

No segundo filme vemos isso representado na figura do Coringa (outro filho de Gotham), mas também no Batman, que ao final se sente inadequado em relação a sua mãe (Gotham), que quer expulsá-lo (Batman até perde o conforto de sua caverna). A cena final é Batman em sua moto saindo de um túnel em direção a uma réstia de luz:

 

 

3 - A terceira matriz está completa quando o feto atravessa o canal de nascimento

Nesta etapa os riscos são imensos. A pressão exercida pelo canal pode conduzir a estados de sufocamento extremo, além do que ao final do parto o feto pode entrar em contato íntimo com material biológico materno (sangue, muco, urina e fezes).

No terceiro filme o vilão de Batman é Bane, que usa uma máscara pra poder respirar direito, e vive no esgoto.

No trabalho “Uma reflexão sobre a morte no contexto da Psicologia Transpessoal”, que usei como base, vemos textualmente:

“Segundo Grof (1997, p.40), a pressão exercida pelas “contrações uterinas que oscilam entre 22,5 e 45 kg” são responsáveis pelo caráter titânico dessa experiência. Identificações com elementos violentos da natureza emergem assim como explosões de bombas atômicas, tanques, foguetes, usinas nucleares. Temas arquetípicos e mitológicos como imagens do juízo final, purgatório, batalhas entre luz e sombra ou deuses e titãs estão relacionados a esta matriz.

A essa altura vocês devem estar de queixo caído, como eu fiquei, mas tem mais:

 

4 - A quarta matriz corresponde ao nascimento como um corpo independente

Ao nível simbólico, esse é o momento de morte e renascimento, aparecendo nas sessões experienciais como a morte do ego. Quando devidamente trabalhada essa experiência, apesar do caráter aterrador, possibilita-se uma maior integração com o presente, levando o indivíduo a uma maior liberdade interior. São comuns relatos de visões de luz e lugares tranquilos.

O terceiro filme termina com a morte do Batman e renascimento como Bruce Wayne, finalmente livre internamente, vivendo o presente, numa tranquila e iluminada cena em Florença.

Vejamos uma análise mais detalhada desse processo de nascimento, morte e renascimento, acompanhando todos os filmes:

No primeiro filme Bruce cai num poço, onde se confronta com seu medo (morcegos, escuridão, abandono). Posteriormente ele desce até lá voluntariamente, e absorve (toma pra si) esse medo, convertendo-o numa arma (essa é a origem do Batman). O que Bruce evoca (e canaliza) é uma energia primordial, avassaladora, nutrida do terror, do medo, das sombras, que faz as engrenagens funcionarem à força e cujo preço é o consumo de sua própria alma. Esse é o primeiro sacrifício por Gotham. No segundo filme temos o confronto com esse medo projetado no outro: o Coringa é o que aconteceria se a integração e conversão desse medo numa arma se desse de forma desordenada. O Coringa é o Batman que deu errado, e um aviso pra Bruce Wayne de onde esse caminho poderia lhe levar. A beleza aqui é que a cidade de Gotham surge mais claramente como um personagem central: o Coringa espalha o ódio surgido do medo para a cidade, que se volta contra si mesma. Batman então se sacrifica pela segunda vez, quando toma a si mesmo como exemplo do que NÃO se deve ser: um justiceiro, um fora-da-lei. Batman então renega sua sombra e deixa a luz (a face sã de Harvey Dent, baseada na Justiça, no Direito) guiar Gotham. Numa pessoa equilibrada, a personalidade de Bruce Wayne deveria naturalmente emergir e assumir o destino de sua vida (deixando de ser uma mera máscara para o Batman), mas sabemos que sua alma atormentada está longe disso. No terceiro filme vemos Batman e Bruce como uma pessoa só, essa treva reprimida, auto-condenada ao ostracismo. Gotham não precisa mais dele. Alfred, o mordomo, é quem faz o papel da luz, da consciência, que através de uma última cartada (num dos momentos mais emocionantes do filme) tenta, através do choque, fazer o Bruce despertar. O choque não dá certo e só funciona pra que as trevas o suguem ainda mais, pra que Bruce se isole ainda mais no buraco em que se meteu (e a metáfora visual da caverna, o útero da mãe-Terra – que abrigou esse órfão – não poderia ser mais precisa e desesperadora).

Bruce perde toda a fortuna, e quando a gente pensa que as coisas não podem piorar vem Bane, lasca a coluna dele e o joga num buraco. Esse é – literalmente – o fundo do poço da jornada do herói. Daqui não tem como ir mais pra baixo. A parte da prisão, embora pra mim não tenha sido bem conduzida como forma de entretenimento (roteiro e direção) é, metafórica e arquetipicamente perfeita. Se Bruce/Batman estava preso no útero da mãe-Terra, nas trevas, a saída do poço representa o canal vaginal, o renascimento, o caminho para a luz! E que pra ser feito precisa se inspirar numa CRIANÇA! Que – depois descobrimos – é do sexo FEMININO! Beatriz, a Anima, caramba!

RISE!

E Bruce ascendeu para a luz, quando desatou as cordas e deu um salto de fé. Afinal, não nascemos para o mundo com anteparas de segurança. E o que segue é resolução. Uma linda e inesquecível resolução. Esqueçam as brigas, os efeitos, as centenas de figurantes, o que me emociona nesse filme são as pessoas. E esse filme, no fundo, é sobre Bruce. Assim como em “A Origem”, o que há de mais belo nesse filme é a história de redenção interna de um homem, Bruce Wayne. Nele, Bruce se desfaz da maldição de ser o Batman. E VIVE!

Li um crítico falando que o filme se tornou um pouco longo devido ao desenvolvimento – desnecessário pra ele – da personagem Selina “Mulher-Gato” Kyle, mas ela é essencial nessa história! Não para o Batman, mas para o Bruce! E Nolan está o tempo todo nos contando a história de Bruce! Há uma beleza que vai além do complexo de Édipo quando Bruce se encanta com a visão de Selina com o colar de pérolas da mãe. É a beleza de voltar a enxergar o feminino, com todas as suas potencialidades de transformação.

RISE!

E o morcego ascende, em direção ao Sol e carregando seu fardo –  uma bomba nuclear: seu terceiro e derradeiro sacrifício por Gotham.

E seus olhos se acostumam com o Sol – a Luz – e depois tudo o que ele viveu, tudo o que ele construiu e lutou insanamente contra si e contra os outros para manter se desfaz, em luz...



REFERÊNCIA:
SAINDO DA MATRIX. Batman: the Dark Knight rises. 01 ago. 2012. Disponível em: <http://www.saindodamatrix.com.br/archives/2012/08/the_dark_knight_rises.html>. Acesso em: 15 set. 2019.

DE UM EXERCÍCIO SOBRE HUSSERL E SARTRE







Respostas por João Florindo Batista Segundo


Quais são as características da ontologia fundamental de Husserl?

A ontologia de Edmund Husserl (1859-1938) é de caráter fenomenológico. O filósofo iniciou sua vida profissional como matemático e assim esperava solucionar todos os problemas com bases exatas tais quais as que supunha que a ciência detinha.
Numa análise mais detida, ele percebeu o empirismo da ciência, vez que esta depende da experiência, a qual é sujeita a suposições, predisposições e equívocos. Daí Husserl chegou à conclusão que a experiência por si só não é ciência. Adveio daí sua crítica ao psicologismo, ao empirismo, ao naturalismo e ao historicismo, componentes do positivismo que grassava à época.
Husserl adotou a doutrina de Descartes, que buscava libertar a filosofia de suposições, duvidando de tudo exceto da capacidade de duvidar. Ele sugeriu a adoção de uma postura livre de inferências, pela qual pudesse investigar os fenômenos da experiência humana: é a chamada abordagem fenomenológica.
Logo, a coisa mesma em Husserl não é a faticidade do objeto, mas, em verdade, o seu fator transcendental, que denominará noema. Já as vivências do objeto são denominadas noese. Vê-se aí a identidade entre sujeito e consciência, ao passo que o eu transcendental é a idealidade e a consciência intuitiva do sujeito.
Sobre esta base, ele buscava lidar com problemas filosóficos que remontam aos princípios da filosofia. Para ele, são as próprias disposições da consciência que dão sentido à vida, a verdade que deve sempre mostrar-se.
Constata-se ainda que os filósofos que empregaram o método de Husserl alcançaram resultados variados, pelo que não foi bem sucedido em dar solução aos problemas mais insolúveis da ciência, apesar de dar início a uma rica abordagem da ontologia.


Faça a distinção entre o “ser-em-si” e o “ser-para-si” em Sartre.

Para Jean-Paul Sartre (1905-1980) não existe Deus, de modo que não fomos criados pelo que não existe e assim não houve qualquer propósito para nossa criação, razão pela qual nossa existência precede à nossa essência, sendo o homem livre para criar o propósito de sua vida. Ele é condenado a ser livre e a arcar com a responsabilidade de suas escolhas.
Todavia, para alcançar este nível de percepção ele primeiramente apreende os níveis do ser no que toca à consciência.
O primeiro é o “ser-em-si”, aquilo que é e não pode ir além disto, pois carece de auto-percepção; é o objeto em si, que só é determinado quando relacionado com um sujeito, o que ocorre quando o em-si se dá como fenômeno (aparição). O em-si não pode escolher fazer-se diferente daquilo que é.
Já o “ser-para-si” se percebe, se relaciona com o ser das coisas e é pura relação com o “em-si”, que dá ao homem a capacidade de formar a si mesmo, em situação de consciência como vazio total, aparência. O para-si é o fundamento, então, da negatividade, da falta de essência definida: percebendo-me, constato que não tenho uma natureza humana definida, pois quando existo é que constituo minha essência, a qual posso mudar a meu bel-prazer, ainda que da escolha advenha a consequente responsabilidade que Sartre atribui a cada homem (é o ser percipiente que elabora a argumentação ontológica).
Assim, num fluxo recíproco entre o “ser-em-si” (objeto) e o “ser-para-si” (sujeito), este é que determinará aquele que a ele se desvela (que aparece, que é fenômeno), permitindo que o nada venha ao mundo, pois o ser é um nada ser.