segunda-feira, 4 de julho de 2022

DÁ-ME A FLAUTA E CANTA!

 


 

Por Gibran Khalil Gibran
 
Na floresta não existe nem rebanho, nem pastor.
Quando o inverno caminha, segue seu distinto curso como faz a primavera.
Os homens nasceram escravos daquele que repudia a submissão,
se ele um dia se levanta, lhes indica o caminho, com ele caminharão...
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o pasto das mentes,
e o lamento da flauta perdura mais que rebanho e pastor.
 
Na floresta não existe ignorante ou sábio.
Quando os ramos se agitam, a ninguém reverenciam.
O saber humano é ilusório como a cerração dos campos,
que se esvai quando o sol se levanta no horizonte...
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o melhor saber,
e o lamento da flauta sobrevive ao cintilar das estrelas.
 
Na floresta só existe lembrança dos amorosos.
Os que dominaram o mundo e oprimiram e conquistaram,
seus nomes são como letras dos nomes dos criminosos.
Conquistador entre nós é aquele que sabe amar...
Dá-me a flauta e canta!
E esquece a injustiça do opressor,
pois o lírio é uma taça para o orvalho e não para o sangue.
 
Na floresta não há crítico nem censor.
Se as gazelas se perturbam quando avistam companheiro, a águia não diz: “Que estranho”.
Sábio entre nós é aquele que julga estranho apenas o que é estranho...
Ah, dá-me a flauta e canta!
O canto é a melhor loucura,
e o lamento da flauta sobrevive aos ponderados e aos racionais.
 
Na floresta não existem homens livres ou escravos.
Todas as glórias são vãs como borbulhas na água.
Quando a amendoeira lança suas flores sobre o espinheiro,
não diz: “Ele é desprezível e eu sou um grande senhor”...
Dá-me a flauta e canta!
Que o canto é glória autêntica,
e o lamento da flauta sobrevive ao nobre e ao vil.
 
Na floresta não existe fortaleza ou fragilidade.
Quando o leão ruge não dizem: “Ele é temível”.
A vontade humana é apenas uma sombra que vagueia no espaço do pensamento,
e o direito dos homens fenece como folhas de outono...
Dá-me a flauta e canta!
O canto é a força do espírito,
e o lamento da flauta sobrevive ao apagamento dos sóis.
 
Na floresta não há morte nem apuros.
A alegria não morre quando se vai a primavera.
O pavor da morte é uma quimera que se insinua no coração,
pois quem vive uma primavera é como se houvesse vivido séculos...
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o segredo da vida eterna,
e o lamento da flauta permanecerá após findar-se a existência.

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