sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

OBSERVANDO A “ADORAÇÃO DOS PASTORES”: UMA HISTÓRIA DAS RELIGIÕES NUMA CENA BÍBLICA




 Mestre de 1515 (Jorge Afonso?), (sec. XVI)Pintura (óleo sobre madeira de carvalho): retábulo da Igreja da Madre de Deus, c. 1515, Alt 160,5 x Lg 124,5 cm.Museu Nacional de Arte Antiga. Proveniência: Igreja da Madre de Deus, Lisboa



OBSERVANDO A “ADORAÇÃO DOS PASTORES”: UMA HISTÓRIA DAS RELIGIÕES NUMA CENA BÍBLICA

Por Paulo Mendes Pinto*

Se há peças obrigatórias na tradição do presépio, elas são os pastorinhos que tanto cativam a atenção das crianças na época natalícia

E estavam pastores na mesma região pernoitando nos campos e guardando os seus rebanhos durante a noite. E um anjo do Senhor postou-se diante deles e a glória do Senhor brilhou diante à sua volta e temeram um grande temor. E disse-lhes o anjo: «Não temais, eis que vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo, porque foi dado à luz para vós hoje um salvador, que é Cristo Senhor na cidade de David. E isto será para vós o sinal: encontrareis um bebé envolto em panos e deitado numa manjedoura.» E de súbito surgiu, juntamente com o anojo, uma multidão do exército celeste, louvando a Deus dizendo:
«Glória nas alturas a Deus! E, sobre a terra, paz entre as pessoas de boa vontade.»
E aconteceu que, quando os anjos se retiraram de junto deles para o céu, os pastores disseram uns aos outros: «Vamos até Belém e vejamos esta palavra que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer.» E foram depressa e encontraram Maria e José e o menino deitado na manjedoura.

Bíblia, Lucas 2, 8-16 (tradução de Frederico Lourenço, Bíblia, Vol. I, Novo Testamento, Lisboa, 2016, pp. 229-230.)


A chamada Adoração dos Pastores é um marco na construção da imagem do Cristo enquanto menino. Se Mateus coloca uns magos de inspiração babilónia a adorar Jesus, Lucas prefere, numa lógica mais pueril, centrar-se na figura dos pastores.

No imaginário colectivo, esta cena ganhou destaque e um lugar de carinho que poucas outras adquiriram no quadro largo da vida de Jesus. Se há peças obrigatórias na tradição do presépio, elas são os pastorinhos que tanto cativam a atenção das crianças na época natalícia.

Quem são estes pastores, que em tantas representações surgem a ofertar ao menino “Cristo Senhor” o que de melhor têm: os produtos da terra, do seu gado, e do seu trabalho? Nada há de acaso nesta descrição bíblica. Em primeiro lugar, nunca nada há de acaso nos textos de Lucas. De facto, este possível discípulo de Paulo, médico de profissão, era um inquiridor nato que declara nos primeiros versículos deste Evangelho tudo ter indagado para produzir um texto, diríamos hoje, sustentado e rigoroso.

Os pastores são induzidos para a acção. Os anjos aparecem-lhes, informam, e prescrevem a visita. Porquê, então, os pastores, com tantos outros grupos possíveis para colocar a adorar Jesus? É que os pastores são plenos de significados importantes para o nascente cristianismo. Se pensarmos que o texto descreve uma cena em ambiente judaico, então os pastores são os que se afastam da cidade, que trabalham com gado impuro, são a imagem dos mais pequenos e frágeis a quem Jesus se vem apresentar.

Mas o sentido do texto é mais rico: tendo em conta que o público-alvo deste texto de Lucas era, assumidamente, o grupo dos recém-cristãos gregos, então ser pastor tem outros ecos, não tão negativos mas muito mais fortes em termos religiosos. A imagem do pastor remete para a espiritualidade, para a purificação. Por exemplo, Hesíodo, o pai da poesia grega, era pastor. Estamos, claramente, no caminho da imagem do Bom Pastor, uma das imagens mais ricas em termos teológicos e espirituais.

Perante público-alvo tão específico neste texto de Lucas, já com algum conhecimento do cristianismo e culturalmente helenizados, é de notar que é neste texto que é usada a caracterização de Jesus como o «Cristo Senhor», uma forma de afirmar, inquestionavelmente, a realeza de Jesus como messiânica. Se no episódio dos chamados Reis Magos se coloca a imagem da realeza a adorar o menino Jesus, aqui são colocados os mais simples na mesma função. De ambos Jesus recebe tributo.

E é também de tributo que temos de falar quando olhamos para este episódio, profusamente pintado na arte portuguesa. De facto, e apesar de nada o texto bíblico dizer sobre as oferendas dadas à Sagrada Família, nenhum dos pintores optou por seguir esse desprendimento do texto. Efectivamente, e como que reproduzindo a atitude que se esperava perante as instituições da Igreja, os pastores, quais camponeses dos séculos XVI ou XVII, oferecem ovos e animais da sua produção.

A cesta de ovos, que nos faz lembrar tão bem a riqueza dos doces conventuais, surge em grande plano no grupo azulejar que apresentamos. Trata-se de uma obra-prima da produção nacional de quinhentos, e estava integrado numa figuração de retábulo de marcenaria lavrada, na capela de N. Senhora da Vida. Significativamente, ladeando esta representação central, estavam S. João Batista e, com toda a naturalidade, o próprio evangelista que retrata esta cena, Lucas.

No quadro de Josefa de Óbidos, um século mais tardio, os cestos são já em número de dois, sendo ainda oferecido um cabrito. Estas oferendas ganham, nesta obra, um grande cuidado por parte de uma pintora que teve nas naturezas mortas um dos seus campos mais profícuos de produção.

Regressando ao século XVI, no quadro do Mestre de 1515, temos novamente uma figuração que se afasta do actual estereótipo da gruta, preferindo-se a ruína, ao mesmo tempo que temos um significativo e pormenorizado vislumbre sobre os instrumentos musicais de início de quinhentos. Também neste caso, as ofertas da lavoura, mais propriamente, os ovos, estão presentes, como que lembrando aos crentes, quase todos eles agricultores, que deveriam repetir esse gesto supostamente iniciado mal nascera o Salvador.

(Imagens e dados das Obras de Arte retiradas do site MatrixPix, instrumento da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC): http://www.matrizpix.dgpc.pt)



Marçal de Matos [atribuída], sec. XVIPainel de azulejos (barro vidrado, majólica), c.1580, Alt 465 x Lg 500 cm Museu Nacional do Azulejo. Proveniência: antiga Igreja de Santo André, Capela de Nossa Senhora da Vida, Lisboa 



Josefa D’Óbidos (1630-1684)Pintura: óleo sobre tela, 1669. Alt 150 x Lg 164 cm. Museu Nacional de Arte AntigaProveniência: Convento arrábido de Santa Maria Madalena (Alcobaça)


*Coordenador da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona. Embaixador do Parlamento Mundial das Religiões e fundador da European Academy of Religions. É especializado em História das Religiões Antigas (mitologia e literaturas comparadas), mas dedica parte dos seus trabalhos a questões relacionadas com a relação entre o Estado e as religiões. Na área da Ciência das Religiões, é o responsável por diversos projectos de investigação, especialmente na relação entre as Religiões e a escola, assim como no desenvolvimento de uma cultura sobre as religiões como componente de cidadania. É ainda investigador da Cátedra de Estudos Sefarditas «Alberto Benveniste» da Universidade de Lisboa. É Membro do Conselho Consultivo da Associação de Professores de História. É director da Revista Lusófona de Ciência das Religiões. Recebeu a Medalha de Ouro de Mérito Académico da Un. Lusófona em 2013.

REFERÊNCIA:

PINTO, Paulo Mendes. OBSERVANDO A "ADORAÇÃO DOS PASTORES": UMA HISTÓRIA DAS RELIGIÕES NUMA CENA BÍBLICA. Disponível em: <http://visao.sapo.pt/opiniao/bolsa-de-especialistas/2017-12-26-Observando-a-Adoracao-dos-Pastores-Uma-Historia-das-Religioes-numa-cena-biblica>. Acesso em: 29 dez. 2017.

JESUS COM UMA ROMÃ. TRANSVERSALIDADES DE UM SÍMBOLO




JESUS COM UMA ROMÃ. TRANSVERSALIDADES DE UM SÍMBOLO

Por Paulo Mendes Pinto*

Quase no final do século XV, Botticelli pintava esta linda cena. Na identificação, na legenda, que podemos consultar nos Ufizzi, em Florença, é-nos dito que é a «Virgem da romã»; contudo, é claro que Jesus também segura o referido fruto, como que o recebendo.
       
A simbologia da romã é imensa e o facto de aqui aparecer claramente associada a Jesus mereceria um sem número de paralelos, ligações e análises.

Por um lado, é óbvia a ligação deste fruto ao quadro solsticial em que a tradição colocou Jesus a nascer; Não só este fruto é dos poucos que amadurece quando a natureza morre, com este frio que leva a natureza como que a morrer, como a tradição nos leva a comê-lo exactamente até aos Reis, colocando-o na centralidade dos rituais da época.

Mas, por outro lado, a ligação a esta natureza que parece desaparecer na exacta medida em que o Sol, no seu momento mais alto, ao meio-dia, indicando o Sul, também faz o seu caminho na linha mais baixa, com menos força, parecendo sucumbir a uma noite cada vez maior, leva-nos para mitos antigos onde, obviamente, a figura de Jesus se foi alimentar simbolicamente.
             
Este fruto é a melhor metáfora para, quer uma afirmação crística, quer uma justificação eclesial.
No segundo caso, o fruto é a própria Igreja, "Una, Santa, Católica", indivisível na sua multiplicidade, e universal. O fruto herdado da decoração do Templo de Salomão, que é também recriado na simbologia do templo maçónico, é aqui a imagem do que Jesus inaugura, seguindo uma estrita leitura da tradição católica.

No primeiro caso, a romã é, naturalmente, todo o peso mental das mitologias de morte e ressurreição.  Primeiramente, esta imagem leva-nos para Perséfone e Deméter no mito em que a primeira não consegue sair completamente livre do Mundo Inferior porque comeu, nesse reino de Hades, um pedaço de uma romã. Por isso, eternamente ficaria ligada a esse mundo da morte, vivendo apenas com a sua mãe durante o tempo de frutificação e de pujança da natureza. Sendo neste quadro o fruto dado por Maria, e recebido por Jesus, esta simbologia é ainda mais clara: é a mãe do menino que abre caminho à afirmação salvífica, tal como com Ísis e Hórus, em que o próprio significado do nome da deusa nos encaminha para o facto de ser ela a dar a realeza (Veja-se o nosso texto: "IN SEARCH OF THE LOST PHALLUS: ON THE NEED FOR ISIS TO MATE").

Ora, Jesus é exactamente aquele que desce ao Inferno, usando a linguagem cristã, resgatando aqueles que morreram. Neste sentido, o menino Jesus com a romã é um Alfa e um Ómega em potencial. É o princípio através da criança acabada de nascer, e é o seu fim, profeticamente marcado pelo fruto que tem na mão.

*Coordenador da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona. Embaixador do Parlamento Mundial das Religiões e fundador da European Academy of Religions. É especializado em História das Religiões Antigas (mitologia e literaturas comparadas), mas dedica parte dos seus trabalhos a questões relacionadas com a relação entre o Estado e as religiões. Na área da Ciência das Religiões, é o responsável por diversos projectos de investigação, especialmente na relação entre as Religiões e a escola, assim como no desenvolvimento de uma cultura sobre as religiões como componente de cidadania. É ainda investigador da Cátedra de Estudos Sefarditas «Alberto Benveniste» da Universidade de Lisboa. É Membro do Conselho Consultivo da Associação de Professores de História. É director da Revista Lusófona de Ciência das Religiões. Recebeu a Medalha de Ouro de Mérito Académico da Un. Lusófona em 2013.

REFERÊNCIA:
PINTO, Paulo Mendes. Jesus com uma romã. Transversalidades de um símbolo. 26 dez. 2017. Disponível em: < http://qeetempus.blogspot.com.br/2017/12/jesus-com-uma-roma-transversalidades-de.html>. Acesso em: 29 dez. 2017.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

UM DISCURSO EM PROL DA PAZ





Discurso de Embaixador sensibiliza participantes do curso Mundo Islâmico

Por FAMBRAS · published 3 de dezembro de 2014 · updated 6 de abril de 2015

Na solenidade de abertura da 2ª edição do curso Mundo Islâmico – Sociedade | Cultura | Estado, realizado no Instituto Rio Branco, em Brasília, o embaixador Gonçalo Mourão, diretor do Instituto, uma das mais importantes escolas de diplomacia do mundo, saudou os participantes com um discurso que queremos compartilhar com toda a comunidade muçulmana.
Veja abaixo, o texto completo das palavras do embaixador. 

Senhor Subsecretário Político, Embaixador Paulo Cordeiro, Dr. Mohamed El Zoghbi, Presidente da FAMBRAS, Senhor Diretor do Departamento do Oriente Médio, Embaixador Carlos Ceglia, Professor Hussein Ali Kalout, coordenador do Curso, Embaixadores, Colegas, Senhoras e Senhores
Ao iniciarmos este segundo Curso sobre o Mundo Islâmico, quero, em minha qualidade de Diretor do Instituto Rio Branco, dizer algumas palavras a respeito de porque este Instituto, mais uma vez, contribui para sua realização, apoiando esta iniciativa da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil e da Subsecretaria-Geral Política para o Oriente Médio e a África, do Ministério das Relações Exteriores.
Há pouco mais de cinco meses, o Papa Francisco reuniu no Vaticano o Presidente de Israel e o Presidente da Palestina, para rezarem os três juntos pela paz.   Pode parecer extraordinário, à primeira vista, que ambos tenham aceito o convite, já que estão engajados, quando não em ações de guerra, em conversações tensas de uma pretensa paz.   Se as armas e as negociações que se repetem não levam à paz, por que haveriam de levar à paz algumas orações?
O Papa não possui mais legiões, como disse no passado algum outro chefe de estado condutor da guerra; e não tem mandato reconhecido por ninguém para intermediar conversações de paz.   O que tem, então, o Papa, que o fez promover aquele encontro no Vaticano?
Creio que talvez tenha duas coisas:  uma delas, ele sabe que tem e da outra, acredito que tenha tido uma intuição.
O que ele sabe que tem, é algo que ele sabe que os dois Presidentes também têm e que é o que talvez os tenha feito aceitarem o inusitado convite:  e isso é Deus.   O Papa sabe que o Deus de Abraão é o Deus dos cristãos e é também o Deus dos muçulmanos.   O Deus é o mesmo; nós é que em nossas divisões não somos os mesmos.   Nós, cristãos, judeus e muçulmanos, é que saímos de junto de Deus, cada um para o seu lado e não sabemos mais como voltar, juntos, para Ele.
Esta foi a primeira grande novidade daquele convite do Papa.   Um convite religioso, sem dúvida, mas que se quer, também, civilizacional.   Se ao longo de toda a história os nossos esforços de conciliação, esforços conduzidos por nós mesmos, homens, foram vãos, é porque –  e isto é o que nos diz o Papa –  é porque não procuramos com afinco a ajuda de Deus.   Vamos rezar juntos, ou seja, vamos nos voltar juntos para Deus –  nos diz o Papa –  esse nosso único e mesmo Deus –  e talvez Ele possa suprir esta nossa milenar incapacidade de nos reconhecermos irmãos.
O Papa não pretendeu fazer diplomacia entre Estados ou entre Governos mas, sim, uma espécie de diplomacia de civilização.
E é talvez por isso que o seu gesto inaudito traz, também, a sombra de uma novidade conceitual, para as teorias das relações internacionais e para a consideração de todos os que se ocupam daquelas teorias, sejam eles tementes a Deus ou não, sejam eles politeístas ou ateus.   E é a ideia, talvez ingênua mas por isso mesmo provocativa e generosa, de um novo e diferente conceito de humanidade, expresso através de um novo e mais amplo conceito de ocidente.   O que temos aqui é uma proposta para que consideremos um novo conceito de civilização ocidental, que engloba a história das três religiões em seu seio.  O que o Papa parece querer dizer é que nossa civilização não é puramente a cristã, que a civilização deles não é puramente a moura e que a dos outros não é tampouco puramente a judia mas que vivemos, os três, no seio de uma mesma trajetória histórica e humana e jungidos a um mesmo destino que reza ao mesmo Deus.   A um Deus que em todas as três religiões tem amor por todos nós e que, se nós nos reconhecermos nesse mesmo Deus, teremos todos também amor e respeito por todos nós, nos reconhecendo parte comum de uma mesma aventura humana.
Temos, assim, lançada no meio das teorias de relações internacionais, a provocação criativa destes dois novos conceitos, a partir daquele convite, inusitado, para rezar junto com os dois Presidentes:  o conceito religioso do Deus comum que a todos ouça e o conceito político de uma civilização ocidental comum a que pertencemos todos.
Mas se aquele desafio se referiu, em um primeiro momento, ao diálogo entre as três religiões do mesmo Deus e à proposta conceitual de um novo ocidente, a provocação vai mais além e nos convoca a pensar aquele desafio como abrangendo a humanidade inteira.   Assim, se somos cristãos e batemos três vezes na madeira para evitar o azar, é que ainda trazemos dentro de nós algo do animista que talvez fomos um dia; se somos muçulmanos e buscamos uma forma de democracia, é porque reconhecemos valores de civilização criados séculos atrás por politeístas;  se somos judeus e estudamos Platão, é porque reconhecemos uma sabedoria humana externa à da Bíblia;  se para nós São Jorge é também Ogum, nós também somos os dois;  se somos budistas e vamos admirar o Nascimento de Vênus do Botticelli em Florença, é porque reconhecemos valores humanos diferentes dos que fundamentaram nossa concepção de mundo;  e, talvez, se choramos nossos mortos, seja porque trazemos dentro de nós uma certa desconfiança de que não exista Deus.   Assim, se hoje somos cristãos, podemos amanhã nos converter ao islamismo ou, se somos judeus, ao cristianismo, ou podemos nos tornar ateus ou umbandistas e isso não mudará em nada nossa natureza humana, continuaremos sendo iguais àqueles a quem éramos iguais antes.
Essa identidade comum, que se sobrepõe às diferenças, é que é convocada para fazer parte das teorias de relações internacionais, dentro de uma perspectiva positiva e criadora.   É verdade que os chamados encontros de civilizações causaram guerras, destruições e desentendimentos.   Mas não causaram só isso e nem principalmente só isso; e cabe aos que acreditam no entendimento entre os homens desenvolver as teorias de relações internacionais que expliquem e valorizem os aspectos de inovação e engrandecimento, que aqueles encontros de civilização sem dúvida promoveram e continuam a promover.   Desenvolver as teorias que nos mostrem que somos mais iguais que diferentes, ou, até mesmo, que porque somos diferentes é que somos iguais.
Muitos dirão que o mundo em seus detalhes é muito mais complexo do que isso.   Outros dirão até que o mundo não é nada disso, que isso tudo não passa de uma ingenuidade irreal.   Mas se o mundo foi o que nós fizemos dele, o mundo será, também, o que pensarmos dele.   E se, fazendo o que fizemos, até hoje, não foi suficiente para encontrarmos um caminho de paz, talvez devamos pensar de outra maneira sobre o mundo e assim, quiçá, oxalá faremos dele uma outra coisa.
Em última análise, o convite com que somos provocados é para pensarmos um outro mundo, é para pensarmos as relações internacionais de outra maneira, partirmos do zero e formular novas teorias de relações internacionais que privilegiem a paz como norma e como vocação humana na história.   Teorias que privilegiem o entendimento e a diversidade entre os homens como um patrimônio comum a ser cultivado; teorias que vejam os desentendimentos apenas como caminhos para o entendimento e não como razão para antagonismos insuperáveis ou como um determinismo fatal na longa e penosa história desta nossa frágil raça humana.   Enfim, é preciso formular teorias de relações internacionais que possam privilegiar a razão de nossa existência não como uma busca constante e interminável do poder sobre os outros mas como a busca da convivência em torno de um destino humano comum.
Tudo isso, talvez, seja o que explique o por que da realização deste segundo curso sobre o mundo islâmico aqui, na Academia Diplomática brasileira, aqui, no Instituto Rio Branco.
Desejo, portanto, um bom curso e passo a palavra ao Embaixador Paulo Cordeiro, para que nos diga algumas coisas talvez um pouco mais sensatas.
Muito obrigado.

REFERÊNCIA:


FAMBRAS. Discurso de Embaixador sensibiliza participantes do curso Mundo Islâmico. Disponível em: <http://www.fambras.org.br/blog_port/?p=385>. Acesso em: 21 dez. 2017.