sábado, 27 de abril de 2013

LOUIS-CLAUDE DE SAINT-MARTIN (1743-1803)





O nome que tem o maior vínculo, desde o século XVIII, ao esquema trans-histórico de redenção, “reparação” ou reintegração não é o de Pasqually, mas de seu aluno, Louis-Claude de Saint-Martin. Quem reverencia os ensinamentos de Saint-Martin e segue as linhas por ele estabelecidas é chamado “martinista”, o que não quer dizer que o próprio aprovaria tudo que os martinistas dizem e fazem. As ideias - mesmo as transcendentes - desenvolvem-se, claro.

O pseudônimo de Saint-Martin combinava com seu ensinamento fundamental. Ele era conhecido como o “Filósofo Desconhecido”, o que pode significar muitas coisas. Um filósofo desconhecido tem muito a ver com uma fraternidade invisível.

Entre agosto e outubro de 1768, Saint-Martin uniu-se à Ordem dos Eleitos Cohens, a ordem de Pasqually e trabalhou como secretário desta, de 1768 a 1771. Ele aprendeu com o iluminismo de Pasqually sobre a existência e o noivado teúrgico com os poderes angélicos (supostamente) superiores. Por meio da magia cerimonial, Saint-Martin seguiu o caminho do adepto de Pasqually à iluminação na tentativa de recobrar as puras faculdades de Adão, antes da Queda. Esse era o único objetivo da teosofia maçônica - não é de admirar que os adeptos têm tendência a desdenhar meros maçons de ofício!

Desfrutando da hospitalidade de Willermoz, em Lyon, Saint-Martin escreveu sua obra mais famosa e mais difundida, Des érreurs et de la vérité, ou les hommes rappelés au Principe universel de la Science (1775) ["Dos Erros e da Verdade, ou Homens chamados ao princípio universal da Ciência"], na qual as ideias de Pasqually foram transformadas em um sistema martinista.

O livro contém uma crítica abrangente do conceito de razão defendido pela iluminação secular. A verdadeira iluminação não vem dos sentidos ou das considerações do cérebro. A iluminação - como a religião - é uma dádiva sobrenatural. A religião é um meio de transmitir sabedoria a quem percebê-la. A Verdadeira Causa de tudo não é um princípio filosófico adequado à razão humana, mas um Ser ativo e inteligente que está sendo ele próprio. A Verdadeira Causa é capaz de algo inimaginável e incalculável para a razão desamparada.

A própria Queda pode ser superada. As faculdades dispersas e fragmentadas do homem são como um espelho quebrado pelo impacto da Queda. Eles não conseguem refletir a verdadeira luz com perfeição até que sejam reunificados pela regeneração. Essa retificação da dignidade do homem é possibilidata pela virtude do ato sacrificial do Réparateur. Cristo, a Palavra, é o “Reparador”, quem conserta a fenda que separa o homem e seu estado primitivo de “Homem-Deus”. A natureza física, que também sofreu a queda, não é imune à obra do Reparador. O mundo físico também será regenerado, quando o Universo atingir novamente a condição edênica (esse pensamento está em sintonia com as promessas da Fama e da Confessio).

A tarefa de Saint-Martin e de seu sistema (que era em si uma revelação que transcendia a razão) era guiar a humanidade para as capacidades e consciência sobrenaturais que eram, na verdade, suas por direito, mas com relação às quais a geração de Saint-Martin nada entendera, imaginando que os “direitos do homem” se aplicassem apenas às questões de administração representativa.

Saint-Martin estava atento a algumas das ideias científicas e (como seriam posteriormente classificadas) quase científicas de sua era. Entre essas ideias estava a importante descoberta do Mesmerismo (de Franz Anton Mesmer, 1734-1815) e suas ideias de “magnetismo animal”.

Saint-Martin contatou o marquês de Puységur e a Societé de l’Harmonie ["Sociedade da Harmonia"], que explorava o mesmerismo esotérico. Essa sociedade fundou Lojas de mesmeristas, que davam alívio ao sofrimento de muitos com a aplicação de métodos inéditos de melhora sensual, embora a explicação científica para os fenômenos fosse tão fraca que levou à ampla condenação acadêmica dos mesmeristas como charlatães.

Mesmerismo foi o precursor da hipnose e da psicanálise, que ainda amargam uma relação difícil com o mundo do estrito método experimental. Basicamente, a explicação de Saint-Martin para os fenômenos do mesmerismo era a de que devemos nos renovar reentrando em nossa verdadeira natureza. As teorias do “alienista” Carl Jung, desde a década de 1920, têm renovado o interesse na relação entre teurgia, alquimia e simbologia gnóstica com a saúde mental. Agora é comum ouvir palavras como “projeção”, animus, anima, “inconsciente coletivo” e o papel dos “arquétipos” na vida do que Jung considerava a natureza “autorreguladora” da psique.

Jung - um neognóstico a seu modo - indicou quatro aspectos idealmente harmoniosos da psique: pensamento, intuição, emoção e sensação. Não se deve permitir que a faculdade da razão sozinha fique em isolamento e exerça domínio sobre tudo o que examina. O que Pasqually chamou “reconciliação” talvez não esteja muito longe do conceito de “individuação” de Jung, a descoberta do eu reintegrado na harmonia dinâmica do todo. Nesse contexto, é possível observar a postura antirracional de Saint-Martin e seus associados como esforços pioneiros no desenvolvimento contínuo de uma psicologia madura, um trabalho que, talvez, mal iniciou-se, e cujos pioneiros, como de costume, foram os “charlatães”.

Em 4 de julho de 1790, Saint-Martin pediu a Willermoz que retirasse seu nome dos registros maçônicos. Saint-Martin descobrira Jacob Böehme!

A obra de Böehme apresentou a Saint-Martin uma visão teosófica de regeneração humana que permanece sem necessidade de estruturação maçônica nem de postura teúrgica. Saint-Martin concluiu que era a divina Sofia que nos possibilita renascer para a vida verdadeira. Os espíritos que apareciam aos Eleitos Cohens eram, em comparação, impuros. A obra de Saint-Martin Ecce Homo (1792) mostrava quão completamente ele tinha abraçado Böehme; a iniciação de Cristo (conforme mostrada na coleção de Böehme, O Caminho para Cristo, 1624) era o único caminho.

Saint-Martin desenvolveu a ideia do Homem-Deus, o cooperador e ministro da vontade divina, encarregado da missão de salvação. Embora Saint-Martin começasse defendendo um governo de homens escolhidos por Deus para guiar a humanidade, seu amigo Niklaus Anton Kirchberger abriu-lhe a mente às ideias de Madame Guyon, Von Eckartshausen, Heinrich Jung-Stilling, Jane Lead, John Pordage, Thomas Bromley, Johann Georg Gichtel, Caspar Schwenckfeld e Valentin Weigel.

Em consequência dessa nova perspectiva mental, Saint-Martin foi um grande incentivador do desenvolvimento e da expansão geográfica do Iluminismo. Na Rússia, o Iluminismo floresceria sob o reinado da imperatriz Catarina II. O Iluminismo também exerceria influência no movimento do Romantismo nos campos da poesia, filosofia da imaginação, epistemologia e filosofia da história. No século XIX, Balzac estaria entre os muitos escritores que sofreriam a influência da inspiração coletiva do iluminismo.

Saint-Martin, ademais, podia ser entendido em termos de uma evolução social progressiva da humanidade, avançando rumo a uma era do Espírito Santo ou “Paracleto”.

O interessante sobre seu pensamento era que, embora fosse claramente gnóstico, visando ao retorno do Homem ao divino Pleroma, não parecia negar o mundo no sentido ascético ou gnóstico radical. O progresso na Terra era considerado um subproduto da evolução espiritual - em termos alquímicos: o parergon do ergon ["trabalho"]. O objetivo supremo era totalmente ultramundano, mas também transformador do mundo. Nesse processo, os acontecimentos mundiais tinham significado real.

Para Saint-Martin, a Revolução Francesa, por exemplo, era algo que poderia ser decodificado como um hieróglifo terrestre de valor espiritual. Os eventos da revolução personificavam a indagação do homem pela ordem correta conforme o impulso interior de reconciliação e reintegração com a vontade de Deus, enquanto sua violência servia como um sinal da punição pela indiferença passada à Causa Verdadeira. Desse modo, a revolução histórica representava um prenúncio de uma liberação bem maior da humanidade ainda por vir: uma lição profunda e dolorosa, um sacrifício.

Entretanto, o mais importante para o indivíduo era buscar a luz pela qual uma amnésia cósmica podia ser superada. Isso era possível prestando-se atenção ao fragmento residual da Imagem divina que ainda existe no homem. Essa luz residual marcará os primeiros passos rumo à reorientação de nossa vontade com a vontade divina, restaurando, assim, à plenitude, a imagem e semelhança divinas originais. Um novo tipo de ser humano surgiria desse processo que é ao mesmo tempo supra-histórico - como a assembleia dos aperfeiçoados - e histórico, em que a reconciliação se dá dentro dos processos da vida na Terra.

Saint-Martin elogia os hommes de désir ["homens de desejo"], que desejam arrancar a vida divina de sua servidão à condição de pecador. Eles imitam Cristo encarnando, assim, a consciência da Palavra e da Sabedoria divinas; eles expiam o mundo por meio de seu sofrimento sacrificial.

Desse modo, Saint-Martin defende a unidade da mensagem espiritual de libertação e reconciliação através do tempo de uma maneira que, embora possa ser considerada complementar à ideia da comunidade trans-histórica do Rito Escocês Retificado, é discutivelmente superior a este como concepção, uma vez que sua universalidade manifesta um desinteresse maduro na para-história maçônica ou radical maçônica. Talvez Saint-Martin, por meio do envolvimento com influência de Böehme, tenha mudado da posição de curiosus para a de Christianus de Andreae.

Há um eco do Christian Cosmoxenus no “homem de desejo” ideal de Saint-Martin (cujas flechas por acaso estavam sendo lançadas aos ouvidos surdos de Londres pelo artista William Blake). Separado do reino material - a vida vegetal - pela autoimolação (a substituição da individualidade ou egocentrismo pela superior Pedra de Cristo), os “homens de desejo” colocam em prática um ministério espiritual, regenerando outros por meio de seu autossacrifício - dispor de todos os bens perante o Reparador.

Saint-Martin convocou os homens de desejo para participar de boa vontade na Grande Obra da Reintegração. Assim que se atendesse o chamado, a Humanidade seria brindada com os divinos mistérios que o chamado Iluminismo racionalista rejeitou no ato.

Para mim, essa mensagem é coerente com a promessa da Fama, ainda que articulada em uma nova era com as próprias prioridades e preconceitos: ” (…) para que o homem possa finalmente compreender sua própria Nobreza e Valor, e por que é chamado de Microcosmo, e até onde se estende seu conhecimento da natureza.” (Fama Fraternitatis)

Saint-Martin também previu a reintegração da Natureza Eterna, uma mensagem particularmente pertinente às preocupações dessa época, 200 anos depois. Sua obra De l’esprit des choses ["Do Espírito das Coisas"] foi de grande interesse à Naturphilosophie alemã ["Filosofia da Natureza"], cujo espírito viveu mais uma vez na imaginação de alguns alemães “verdes” durante o final da década de 1970 e de 1980. (Falo por experiência própria).

Conforme Saint-Martin, “a imaginação é a parte espiritual da humanidade que possui a visão de todas as coisas. [...] Por meio da imaginação, compreendemos a unidade espiritual do Universo”. Dificilmente William Blake podia ter se expressado melhor! Por outro lado, Saint-Martin e o artista e visionário inglês compartilhavam fontes comuns: Böehme e Paracelso.

Saint-Martin também estava ciente de algumas das armadilhas de uma aderência tão próxima ao determinismo exibido por algumas formas de astrologia. O sábio governa seus astros, não o contrário. A vontade do homem de seguir a vontade de Deus pode ser obstruída por interpretações literais de símbolos astrológicos. Saint-Martin deu o nome de “magismo astral” ao poder de reverter o curso da jornada do homem, considerando-o uma distorção dos raios da luz refletida que codifica a vontade divina. Com certeza, deve ter encontrado essa doutrina em Astrologia Teologizada, de Weigel, e também Análise do horóscopo de Christian Cosmoxenus, de Andreae.

Saint-Martin, ao manter as preocupações da Fama e da Confessio, também estava preocupado com a teoria da linguagem, ciente de que um grande abismo separa a humanidade da língua adâmica original, que outrora conteve a essência de uma coisa, de forma que dizer a “palavra” era chamar a própria coisa de dentro. Sem a linguagem adâmica, a comunicação da verdade divina sempre sofreria de um alto grau de deterioração.

Limitações de linguagem costumam sugerir limitações de doutrina. Por exemplo, se dissermos “reino dos céus”, queremos dizer a tradução literal da bíblia grega, que sugeriria um reino do céu diurno e o espaço exterior governado por um imperador? É óbvio para Saint-Martin que as palavras representam uma comparação e metáfora de uma realidade espiritual, decodificada apenas em parte por meio de nossa decaída linguagem. Era possível inferir, na imaginação, a realidade espiritual ao nos concentrarmos na infinitude do que os olhos nos mostram. Os olhos não revelam toda a verdade. Há outra linguagem, uma linguagem simbólica, raramente compreendida, e o dom do poeta de unificar sua visão pelas palavras não é apreciado universalmente.

Cristo é o Verbo e, portanto, reconciliar-se com Ele é, ao mesmo tempo, obter uma nova língua, uma nova linguagem. Essa nova língua foi prometida como dádiva da vindoura era de ouro na Confessio Fraternitatis, prefigurado na história bíblica de Pentecostes, quando os discípulos de Jesus de repente receberam dons linguísticos tão extraordinários que os espectadores confundiram esse espetáculo com o de embriaguez. De fato, tiveram um gostinho do novo reino.

Esse relato nos Atos dos Apóstolos, de acordo com o sistema de Saint-Martin, pode ser considerada um pedaço da história avaliado pelos sinais divinos que codifica. Quanto mais o homem de desejo reintegrar-se no Pleroma (Completude de Deus), mais os sinais divinos com os quais ele está capacitado a decodificar, maior sua compreensão da linguagem original da criação. Quando ele pode completamente abraçar sua Sofia, ele é dotado com a plenitude do Verbo. Na visão de Saint-Martin, eventos históricos são simbólicos de, não instrumentos para, a reintegração da humanidade. Quando o serviço estiver feito, não haverá pergaminho para enrolar; o fim estará em seu princípio.

Sente-se que Saint-Martin não somente descobriu o continente de Jacob Böehme, mas também apreciou a longa estadia na ilha de Christianopolis!


FONTE:

1 - CHURTON, Tobias. A história da Rosacruz: os invisíveis. São Paulo: Madras, 2009, pp. 362-366.

2 - COSTA, Wagner Veneziani. Blog O Editor. Disponível em <http://oeditor.osupremo.com.br/index.php/maconaria/111-o-18-grau-maconico, acesso em 07 abr. 2013.

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