domingo, 28 de abril de 2019

O ENCONTRO DE KARL VON HUND COM UM S.I.







Trecho de um dos livros da coleção Mozart, de Christian Jacq, no qual o Barão Karl von Hund é visitado por Thamos, “Conde de Tebas” e Superior Incógnito, personagem criado pelo autor. O objetivo do visitante: preparar a franco-maçonaria para no futuro acolher o jovem Mozart.


Por Christian Jacq


Kittlitz, dezembro de 1764

Com cinqüenta anos recém-com­pletados, o barão Charles de Hund, senhor por hereditariedade de Lipse, na Alta Lusácia, via concretizar-se o seu sonho mais ardente. Em Kittlitz, a uns sessenta quilômetros de Dresden, ele fundava a Loja-Mãe*, dando origem a um novo rito que prometia um futuro excepcional.
A grande aventura tomara forma em 24 de junho de 1751, quando o barão e alguns Irmãos se reuniram num laboratório alquí­mico montado no fundo de uma gruta, perto de Naumburg.
Essa nova Ordem abrangia os verdadeiros graus superiores e se fundamentava numa tradição esotérica. Nascida no Egito, a iniciação havia sido transmitida aos primeiros cristãos pelos essênios, depois compilada pelos clérigos do Santo Sepulcro instalados em Jerusalém. Desejando restabelecer a antiga Ordem, eles criaram a Ordem dos Templários, conferindo a iniciação suprema a alguns cavaleiros.
Confiantes demais em seu poder temporal, os Templários não suspeitaram da avidez do rei da França, Filipe, o Belo, nem da covardia do papa Clemente V. Antes de ser executado, o Grão-­Mestre Jacques de Molay entregou ao sobrinho, conde de Beaujeu, os tesouros da Ordem, a coroa dos reis de Jerusalém, o candelabro de ouro com sete braços, as relíquias, os anais e os rituais iniciáticos.
Conseguindo escapar dos assassinos de Filipe, o Belo, Beaujeu uniu o seu sangue ao de nove cavaleiros elevados ao grau de “Arquitetos Perfeitos” e ordenou que seguissem o caminho do exílio para transmitir os segredos da Ordem. Eles se refugiaram na Escócia e ali criaram Lojas nas quais só eram aceitos alguns raros iniciados, cuidadosamente escolhidos. Esses cavaleiros praticavam ritos que abordavam os mistérios do Templo de Jerusalém e os hie­róglifos gravados nos santuários antigos.
Charles de Hund queria devolver a vida e o poder a essa tradi­ção, criando um sistema de altos graus que se estenderia a toda franco-maçonaria européia. Caberia à Alemanha restaurar a Ordem do Templo e fazer com que fosse reconhecida pelas autoridades.
O novo sistema maçônico receberia o nome de Estrita Observância Templária, e a data simbólica do seu nascimento ficou estabelecida em 11 de março de 1314, dia da morte de Jacques de Molay. Evidentemente, foi preciso adquirir propriedades, abrir escolas e pagar salários aos dirigentes para que cuidassem com entusiasmo da formação da Ordem.
Durante mais de quatro anos, o barão havia consagrado seu tempo e fortuna na elaboração dos estatutos e dos rituais, junto com Irmãos convictos. Mas a horrível Guerra dos Sete Anos, desencade­ada em 1756, havia posto um fim nessa primeira arrancada. Quase todos os oficiais, os novos Templários, haviam partido para o campo de batalha. Com as suas terras devastadas, ameaçado pelos prussianos, o barão de Hund havia se refugiado na Boêmia.
Depois da proclamação da paz em Hubertsburg, o barão recomeçou a trabalhar na obra e, em 1764, vários franco-maçons que­riam aderir à Estrita Observância Templária.
De Hund não transigia em relação aos princípios e à disciplina. Qualquer Irmão que desejasse se “retificar” em relação à maçona­ria convencional deveria assinar um ato de submissão e jurar obediência aos Superiores Desconhecidos, dos quais o barão admitia não fazer parte**.
– Vossa Graça – avisou o secretário –, o conde de Tebas, deseja vê-lo.
O barão desejava recrutar o máximo de aristocratas ricos, pois a colaboração financeira seria indispensável para a reconstrução da Ordem.
Corpulento, empertigado, rosto oval e queixo grande, De Hund não era uma pessoa fácil e, em geral, exercia imediata ascendência sobre as pessoas.
Thamos foi o primeiro nobre a impressioná-lo. Sozinho, o visi­tante encheu a grande sala com a sua presença e impôs uma atmosfera solene.
– O que deseja, senhor conde?
– Subi os sete degraus do átrio e vi as nove estrelas, os nove fundadores da Ordem do Templo. As três portas da Loja são a con­tinência, a pobreza e a obediência. Se nela encontrarmos as ferra­mentas, como o esquadro, o compasso, o martelo e a colher de pedreiro, é porque os cavaleiros precisaram exercer um ofício arte­sanal para sobreviver.
Sem sombra de dúvida, o conde de Tebas havia sido iniciado numa Loja que, aos rituais clássicos, acrescentava noções específicas do Rito Templário! No entanto, o barão de Hund não estava prepa­rado para a declaração que ele fez em seguida:
– As etapas que acabei de citar, no seu modo de ver, não pas­sam de uma preparação para dois altos graus. O primeiro é o de noviço, quando o iniciado bebe uma taça amarga para se lembrar das desgraças da Ordem do Templo, cujas origens lhe são reveladas. O segundo é essencial. Só ele dá acesso à Ordem Interna, quando o cavaleiro recebe um nome latino.
O barão de Hund hesitou:
– Como... como sabe? Só as pessoas que me são próximas trabalham na redação desse grau!
– Pense bem – recomendou Thamos.
– Você... você é um dos Superiores Desconhecidos?
– Eu vim do Egito para cumprir uma missão vital: permitir que o Grande Mago brilhe e ofereça a sua Luz ao mundo. Todavia é pre­ciso que ele possa contar com os apoios indispensáveis, sob pena de pregar no deserto e de ser invadido pela desesperança.
– Eu sou... um desses apoios?
– Seu projeto não consiste em restaurar uma franco-maçonaria templária que dará um sentido a toda a Europa?
– Não existe outra solução para impedir que as sociedades se tornem escravas do materialismo – sentenciou De Hund.
– Não corre o risco de entrar em choque com as autoridades?
– Elas compreenderão a necessidade da Ordem... Essa Ordem não fará oposição aos reis nem aos príncipes. Ao contrário, vai ajudá-los a governar melhor.
– Precisará de tempo, de paciência e da adesão de muitas Lojas.
– Nada vai me faltar. Nem mesmo a Guerra dos Sete Anos me desencorajou. E, hoje, você está aqui! Isso não é uma prova da legitimidade do meu procedimento?
– Tenha perseverança, barão. A estrada promete ser longa e difícil.
– Nenhum obstáculo me assusta. Esta é a sua primeira e últi­ma visita ou vamos nos rever?
– O destino decidirá.
O barão de Hund não ousou perguntar o nome do Grande Mago. Poucos dos franco-maçons podiam vangloriar-se de ter encontrado um dos nove Superiores Desconhecidos que venciam o tempo e as provas da humanidade para dar, no momento oportuno, força e vigor à iniciação.
Esse aparecimento inesperado provava ao fundador da Estrita Observância Templária que ele estava no caminho certo.

* As Três Colunas.
** As oito províncias da Ordem reproduziam as divisões administrativas dos Templários e cobriam todo o continente europeu, mais a Rússia.


REFERÊNCIA:
JACQ, Christian. Mozart. v. 1. O grande mago. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009. p. 59-63.

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