quarta-feira, 2 de abril de 2025

À DERIVA

  


 

Por Liezi

 
 

Desde muito cedo, Liezi amava viajar. Então, seu Mestre, Hu Qiu, perguntou-lhe: “Por que você gosta de viajar?”.

 “O interesse pela viagem se deve ao prazer que usufruímos das coisas novas”, respondeu Liezi. “A viagem da maioria das pessoas ocorre em consequência do interesse pela contemplação silenciosa das coisas externas. Porém, meu interesse na viagem é contemplar as mudanças internas das coisas. Há viagens e viagens, contudo, não há ninguém que consiga ver suas diferenças!”

“Sua viagem é idêntica à dos outros”, disse Hu Qiu. “Por que pensa que é diferente? Tudo que vemos se transforma constantemente. Você se deleita apenas com as transformações interiores das coisas externas e nem percebe que seu próprio ser nunca permanece idêntico. Dedica-se apenas às viagens externas e não às contemplações interiores. Viajar para o mundo externo é buscar as coisas que possam preencher nossa carência interior. Contemplar a si mesmo é buscar a autossuficiência em nossa própria natureza. Assim, buscando autossuficiência interior, realizamos uma viagem de caráter mais nobre. Buscando as coisas externas, estamos longe dessa realização.”

A partir desse instante, Liezi nunca mais na vida quis viajar para o mundo e deixou de se considerar ignorante em relação ao sentido da viagem. Por isso, Hu Qiu lhe disse: “Essa é a dimensão mais nobre da viagem: não saber para onde vamos nem saber para onde desejamos olhar. Viajar e tudo contemplar, eis o que chamo de contemplação, a verdadeira realização da viagem!”.

 

* * * * *

 

初,子列子好游。壶丘子曰:“御寇好游,游何所好?”列子曰:“游之乐所玩无故。人之游也,观其所见;我之游也,观之所变。游乎游乎未有能辨其游者。壶丘子曰:“御寇之游固与人同 欤,而曰固与人异欤?凡所见,亦恒见其变。玩彼物之无故,不知我亦无故。务外游,不知务内观。外游者,求备于物;内观者,取足于身。取足于身,游之至也;求备于物,游之不至也。于是列子终身不出自以为不知游。壶丘子曰:“游其至乎至游者不知所适至观者不知所 物物皆游矣物物皆观矣是我之所谓游是我之所谓观也。故曰:游其至矣乎!游其至矣乎!”

 

 

REFERÊNCIA:
LIEZI. Vazio Perfeito [Chong Xu Jing]. Tradução e notas de Chiu Yi Chih. São Paulo: Mantra, 2020. p. 121.

quarta-feira, 12 de março de 2025

PUTREFATIO II

 



Por Liezi

 

  

Yang Zhu disse: “Enquanto estão vivas, todas as criaturas se distinguem entre si. Porém, ao morrer, todas se tornam semelhantes. Durante a vida, elas se distinguem pelo fato de serem virtuosas ou insensatas, nobres ou infames. No momento da morte, porém, todas se igualam no mau cheiro, na decomposição, no declínio e na extinção. Por isso, não dependem de nós a vida ou a morte, a virtude ou a insensatez, a nobreza ou a infâmia. Todos vivem e morrem, sejam virtuosos ou insensatos, sejam nobres ou infames. Alguns vivem dez anos, outros vivem cem anos. Os santos e benevolentes morrem. Os estúpidos e os perversos também morrem. Quando vivos, eram os imperadores Yao e Shun, mas, ao morrer, se tornaram meros ossos em decomposição. Assim, quando morrem, os imperadores Jie e Zhou também se tornam ossos apodrecidos. Quem saberá diferenciá-los se todos se igualam com os mesmos ossos apodrecidos? Portanto, enquanto estiver vivo, desfrute da existência! Para que se preocupar com aquilo que lhe ocorrerá após a morte?”.

  

* * * * *

 

杨朱曰:万物所异者生也,所同者死也。生则有贤愚、贵贱,是所异也;死则有臭腐消灭,是所同也。虽然,贤愚、贵贱,非所能也,臭腐、消灭,亦非所能也。故生非所生,死非所死,贤非所贤,愚非所愚,贵非所贵,贱非所贱。然而万物齐生齐死,齐贤齐愚,齐贵齐贱。十年亦死,百年亦死,仁圣亦死,凶愚亦死。生则尧舜则腐骨则桀纣则腐骨。腐骨一矣熟知其异且趣当生奚遑死后

 

REFERÊNCIA:
LIEZI. Vazio Perfeito [Chong Xu Jing]. Tradução e notas de Chiu Yi Chih. São Paulo: Mantra, 2020. p. 213.

segunda-feira, 3 de março de 2025

颓废 - TUÍFÈI

 

 

Por Lü Buwei (291–235 a.C.)

 

5/2.2 B

It is not that doomed states and disgraced peoples lack music, but rather that their music does not convey joy.

 

Não é que Estados condenados e povos desonrados não tenham música, mas sim que sua música não transmite alegria.

 

5/2.3

As a general principle, music is the harmony between Heaven and Earth, and the perfect blend of Yin and Yang.

 

A música baseia-se na harmonia entre o céu e a terra, na concordância entre Yin e Yang.

 

5/3.1 B

Thus, the more extravagant is the music, the gloomier are the people, the more disordered the state, and the more debased its ruler. As a consequence, he will also miss the true nature of music.

 

Assim, quanto mais extravagante for a música, mais sombrio será o povo, mais desordenado será o Estado e mais degradado será seu governante. Desse modo, a essência da música também se perde.

 

5/3.2

The relationship between their lives and their music is like that of ice to the blazing sun: instead of using it properly, they use it to attack themselves. This is the result of not knowing the true nature of music and thus striving for extravagance.

 

A relação entre suas vidas e sua música é como a do gelo com o sol escaldante: em vez de usá-la adequadamente, usam-na para se autodestruir. Esse é o resultado de não conhecerem a verdadeira natureza da música e, portanto, buscarem a extravagância.

 

5/4.4

Thus, the tones of an orderly age are peaceful and joyous because its policies are stable. The tones of a chaotic age are resentful and angry because its policies are perverse. The tones of a doomed state are sad and mournful because its policies are dangerous.

 

Assim, as músicas de uma época ordenada são pacíficas e alegres porque suas políticas [do Estado] são estáveis. As músicas de uma época caótica são de ressentimento e raiva porque suas políticas são perversas. As músicas de um Estado condenado são tristes e sentimentais porque suas políticas são perigosas.

 

 

REFERÊNCIA:
LÜ BUWEI. The Annals of Lü Buwei [Lüshi Chunqiu (吕氏春秋)]. A complete translation and study by John Knoblock and Jeffrey Riegel. Stanford: Santford University Press, 2000, p. 138, 140, 142, 145. Tradução nossa.

sábado, 22 de fevereiro de 2025

HORROR SILENTII

 

 

Por Papa Bento XVI


O progresso técnico, nomeadamente no campo dos transportes e das comunicações, tornou a vida do homem mais confortável, mas também mais agitada, às vezes até desordenada. As cidades são quase sempre ruidosas: nelas raramente há silêncio, porque um barulho de fundo permanece sempre, nalgumas áreas até de noite. Além disso, nas últimas décadas o desenvolvimento dos mass media difundiu e amplificou um fenómeno que já se perfilava nos anos 60: a virtualidade, que corre o risco de dominar a realidade. Cada vez mais, mesmo sem se dar conta, as pessoas vivem imersas numa dimensão virtual, por causa de mensagens audiovisuais que acompanham a sua vida, desde a manhã até à noite. Os mais jovens, que já nasceram nesta condição, parecem desejar encher com músicas e imagens cada momento vazio, como se tivessem medo de sentir, precisamente, este vazio. Trata-se de uma tendência que sempre existiu, especialmente entre os jovens e nos contextos urbanos mais desenvolvidos, mas hoje ela alcançou um nível tal, que se chega a falar de mutação antropológica. Algumas pessoas já não são capazes de permanecer por muito tempo em silêncio e solidão.


REFERÊNCIA:
Papa Bento XVI. Excerto da Homilia na Celebração das Vésperas. Igreja da Cartuxa de Serra San Bruno. Domingo, 9 de Outubro de 2011. Disponível em: https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/homilies/2011/documents/hf_ben-xvi_hom_20111009_vespri-serra-san-bruno.html. Acesso em: 20 nov. 2024.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

E POR QUE NÃO...?

 


Citado por Georges da Silva e Rita Homenko

 

– Nagasena, aquele que não vai renascer está sujeito às sensações dolorosas?

– Algumas. Outras, não.

– Quais?

– Pode ter sofrimentos físicos. Mentais, não.

– Por quê?

– Não desapareceu a causa. A causa dos sofrimentos físicos não desapareceu, mas extinguiu-se a causa dos sofrimentos mentais. O Bem-Aventurado disse: “Ele só pode ter uma espécie de sensação, a física, não a sensação mental.”

– Se ele sofre, por que não realiza logo a sua extinção pela morte?

Maharaja, o Arahant está livre de apego e de aversão. Os sábios não querem o fruto verde, colhem-no quando está maduro. Sariputra disse: “Não desejo a morte. Não desejo a vida. Aguardo minha hora como o servidor espera o seu salário.” (Milinda Panha II, 20).

 

REFERÊNCIA:
Sensação do Arahant. In: SILVA, Georges da; HOMENKO, Rita. Budismo: psicologia do autoconhecimento (o caminho da correta compreensão). São Paulo: Pensamento, 1982. p. 67.

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

AS DISPUTAS - 3

 
 

A PUREZA – SUTHATTHAKA SUTTA

 

“Vejo um homem puro e perfeito, sua pureza é, sem dúvida, fruto das idéias filosóficas que possui”. Quem assim raciocina pensa que essas idéias representam o que há de melhor e acredita que se possa inferir o conhecimento pelas qualidades manifestadas pelos que o possuem.

Se alguém pudesse tornar-se puro simplesmente mudando de conceitos, e se pudesse libertar-se da tristeza e da aflição apenas pelo conhecimento, isto significaria, então, que alguma outra coisa, além da Nobre Senda de Buda, teria o poder de purificar o homem e pôr termo ao seu infortúnio. Não é isto, porém, o que os próprios conceitos estão a demonstrar.

Nenhum brâmane autêntico acredita que possa ser purificado por outra pessoa, mostrando-se, por isso mesmo, indiferente ao que vê e ao que ouve, à virtude convencional, às vitórias pessoais, indiferente ainda aos dogmas pessoais e a tudo, enfim, que se convencionou chamar bom e mau. Ele se mostra igualmente livre tanto da ambição de vitórias, quanto da vitória já alcançada.

O homem, diante de uma coisa, logo em seguida se apega a outra, mas, a despeito das numerosas mudanças que realize, não consegue encontrar paz. Ele não é melhor que um macaco que vive a saltar de galho em galho.

São os sentidos que levam o homem a escravizar-se a uma organização. O sábio, porém, independendo dos sentidos, por já conhecer os ensinamentos – dhama – , nunca mais há de se tornar escravo de organização alguma.

Quando o homem já não mais depende do que vê e do que ouve e passa a confiar integral e exclusivamente em sua intuição, suas novas opiniões já não mais se modificarão; nada o impelirá a mudar.

Ele não estabelece leis, nem faz regras, como também não se apresenta como modelo de algum ideal, pois é completamente desapegado de tudo.

Ele não se apega mais a coisa alguma do mundo.

O brâmane liberto já transcendeu as paixões e não se deixa mais afetar por elas. Para ele, não há mais norma, nem lei, nem coisa alguma existe que ele possa chamar de norma, e nada ainda que possa chamar lei.

  

REFERÊNCIA: 
BUDA. Dhammapada – caminho da lei; Atthaka – o livro das oitavas. Doutrina budista ortodoxa em versos. Tradução, adaptação, prefácio e notas do Dr. Georges da Silva. 7. ed. São Paulo: Pensamento, 2004. p. 69-70.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

OS MALES DA TRANSPARÊNCIA NA SOCIEDADE BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA, SOB A ÓTICA DE BYUNG-CHUL HAN

 

 

Por Allyson Pereira de Almeida e João Florindo Batista Segundo


Resumo

 

Este artigo discute a atual hiperexposição dos brasileiros nas redes sociais, buscando analisar os seus efeitos decorrentes. Para tanto, analisa tal conjuntura sob o enfoque teórico do filósofo teuto-coreano Byung-Chul Han em discussão com outras fontes bibliográficas sobre o tema a fim de se estabelecer um diálogo crítico e analítico, tendo em vista o intuito desta pesquisa. A hipótese é que, ressalvadas as características culturais próprias do Brasil, seu povo já vem sofrendo dos mesmos efeitos prejudiciais da transparência que, há décadas, acomete a Europa e a América do Norte. Como resultado, espera-se comprovar o impacto danoso dessas ferramentas em diversos aspectos de nossas vidas cotidianas e, sob o enfoque da Filosofia, propor estratégias para uma convivência saudável com o mundo virtual que, como sabemos, constitui nosso mundo contemporâneo. Outrossim, almeja-se contribuir para o debate em Filosofia da relação pessoa-mundo virtual a nível nacional, a qual também é um novo objeto de estudo de outros ramos do saber.

 

REFERÊNCIA:
ALMEIDA, Allyson Pereira de; BATISTA SEGUNDO, João Florindo. Os males da transparência na sociedade brasileira Contemporânea, sob a ótica de Byung-Chul Han. Problemata: International Journal of Philosohpy. v. 15. n. 3. 2024. p. 74-92. DOI: https://doi.org/10.7443/problemata.v15i3.70860

  

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