segunda-feira, 2 de abril de 2018

HESSE, CASTÁLIA E OS BENEDITINOS






Nos meandros da ficção e da realidade: alguns aspectos comuns entre castálicos e beneditinos em O Jogo das Contas de Vidro

Into the meanders of fiction and reality: some common aspects between Castalian and Benedictines in The Glass Bead Game

Raphael Novaresi Leopoldo*


* O autor é discente da Pós-Graduação em Literatura da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC além de estudante e técnico do grupo de pesquisa Teopoética – Estudos Comparados entre Teologia e Literatura, este também vinculado à federal catarinense. Tem se aplicado sobretudo à dialogicidade entre Teologia e Literaura. E-mail para contato: raphanova@gmail.com.

Resumo
Com este trabalho, objetiva-se evidenciar a instigante similitude engendrada por Hermann Hesse em O jogo das contas de vidro na criação de uma instituição ficcional e secular, que pode ser chamada de Ordem castálica, e na representação literária de outra, por sua vez, existente na realidade não-literária e confessional, a Ordem beneditina. Buscando-se lograr tal intento, expor-se-á ambas as congregações assim como apresentadas pelo narrador do romance em questão, concentrando-se características esparsas pelo correr da estória, além de reportar-se aos beneditinos enquanto organismo factual quando estes possuírem traços subentendidos no romance que aparentem contribuir ao estudo comparativo pretendido.

Palavras-chave: Teologia e literatura; Romantismo alemão; Beneditinismo.

Abstract
This paper aims at making clear the striking similarity managed by Herman Hesse in The glass bead game in the making of a fictional secular institution, which can be called the Castalian Order, and in the literary portrayal of another one, existing at the faithful non-literary reality, the Benedictine Order. In order to achieve such goal, we will expose both congregations as they are presented by the novel’s narrator, while we focus on sparse characteristics along the story. Besides, we will report to the Benedictines as an actual organism when they appear to possess traits unstated in the romance which may contribute to the present comparative study.

Keywords:  Theology     and    literature;     German       romanticism; Benedictines.


Musik des Weltalls und Musik der Meister
Sind wir bereit in Ehrfurcht anzuhören,
Zu reiner Feier die verehrten Geister 
Begnadeter Zeiten zu beschwören.1
..............................
(Das Glasperlenspiel)

Obsculta, o fili, praecepta magistri, et inclina aurem cordis tuis, et admonitionem pii patris libenter excipe et efficaciter comple [...].2

(Regula Sancti Benedicti)

No difícil ano de 1943, o mundo estava envolto nas agruras da II Grande Guerra. Ainda assim, na França, Saint-Exupéry lançava Le petit prince; no Brasil, Érico Veríssimo tomava emprestado um verso de Shakespeare para nomear um novo livro, O resto é silêncio; na Suíça, Hermann Hesse3  autoexilado (SANTOS, 1946, p. 1) e produzindo literatura para sobreviver psicologicamente ao conflito externo (HESSE, 2011) publicava Das Glasperlenspiel (O jogo das contas de vidro),4  seu derradeiro e mais extenso trabalho.5
Detendo-se na última obra, porém sem a pretensão de fixar-se na controversa questão do que viria ser, na prática, a atividade lúdica cujo nome é também o título do livro, o presente escrito propõe discorrer a respeito de um aspecto, ao que parece, ainda não analisado das certamente várias possibilidades de abordagem literária no que tange o acento místico do romance em questão. Isso posto, não pretendendo nem mesmo sugerir a vinculação de Hesse a crença ou crenças religiosas porventura figuradas na ficção narrativa em voga, sabendo-se que vida e obra não são algo necessariamente vinculados.
Mais propriamente, constata-se que em O jogo das contas de vidro Hesse constrói duas societatis que se relacionam e possuem características análogas apesar de se prestarem a objetivos declaradamente distintos. A primeira delas (castálica), trata-se de uma Ordem basicamente literária, realizada no espaço ficcional; a segunda (beneditina), parte de uma organização real, isto é, que existe extra-ficcionalmente. Busca-se, com a exposição a seguir, identificar aspectos desse labor literário hessiano sobre ambas as organizações.
Ajunte-se também que este breve estudo situa-se propriamente dentro da dialogicidade existente na linha dos Estudos Comparados entre Teologia e Literatura, que não se traduz por prédica proselitista na academia ou mesmo propensão a pendores religiosos. Diferente disso, ainda que naturalmente em diálogo constante com o religioso, mantêm-se aqui a nítida noção da literatura como laico ponto de partida e também de chegada.

O recorte temático e seu contexto

Em linhas gerais, a estória ou “esboço biográfico” (JCV, p. 132), nas palavras do próprio livro, sobre o protagonista José Servo se passa em um tempo futuro, posterior ao século XX.6 O protagonista, de origem modesta, ainda criança, destaca-se sobremaneira no estudo da música a ponto de atrair a atenção de seu professor. Com isso, após averiguação de cunho seletivo com resultado favorável, o aluno é enviado para uma Província Pedagógica, situada na região de Castália (do grego, fonte do saber),7 da grande e influente instituição denominada Ordem, de larga fama e reconhecimento, que instrui, especializa e sustém seus membros, uma controversa elite erudita e esteta.
Um encargo incomum naquele mundo à parte é que uma seção específica de congregados, a casa Cela Silvestre, deve praticar e evoluir o enigmático jogo de avelórios ou jogo das contas de vidro, tradicional especialidade castálica, “[...] uma linguagem e um método universais, para exprimir todos os valores e conceitos do espírito e da arte, levando-os a um denominador comum” (JCV, p. 87). Sobre ele, o romance muito discorre filosoficamente, mas pouco explica de forma concreta ao leitor, advertindo: “Não esperem portanto de nós a história e a teoria completa do Jogo de Avelórios. Mesmo autores de maior méritos e com mais competência que nós, não estariam em condições de fazê-lo” (JCV, p. 3). E, dentre outras coisas, é se tornando um exímio jogador de avelórios e pertencendo à elite dos jogadores que José Servo ganha à confiança dos superiores a ponto de o incumbirem de sucessivas missões. A primeira delas trata-se da ida e permanência na Abadia8 do Rochedo Santa Maria.
Dos diversos aspectos que se possa levantar sobre a citada incumbência do protagonista, o primeiro ponto a sublinhar é que esse filho de Castália parte para uma operação de fundo diplomático – fato esclarecido ao leitor e ao próprio Servo apenas na segunda parte da permanência deste entre os monges, quando ele já está suficientemente ambientado na Abadia. O objetivo é aproximar Castália da Igreja Católica,9 conforme esclarece a José Servo o Mestre do Jogo de Avelórios Tomás Von der Trave, alta autoridade castálica: “[...] pretendemos, cedo ou tarde, ter uma representação permanente de nossa Ordem no Vaticano, esperando outro tanto da Igreja, se for possível” (JCV, p. 141).
O grande intuito por trás dessa medida, que chega a ser engenhosa, fica explícito nas seguintes palavras do narrador:

E o Mestre Tomás continuou, na sua forma de falar persuasiva e bela, dizendo que agora chegara o momento histórico, ou estava bem próximo, de construírem uma ponte sobre o abismo que separava Roma da Ordem [castálica], pois em futuros perigos essas duas instituições teriam sem dúvida inimigos comuns, participariam do mesmo destino e seriam aliados naturais. (JCV, p. 140).
  
Essas temidas adversidades por vir dizem respeito ao contexto sociopolítico mundial. A hierarquia castálica pauta-se na constatação histórica de que a Igreja, bem ou mal, sobreviveu a todo o tipo de crises eclodidas dentro e fora dela. Em seu caráter terreno, esta é sustentada pelo mundo que, mesmo estando por vezes submerso em graves problemas, não consegue arrasar a estrutura eclesiástica. Temendo o próprio futuro, Castália pretende se associar ao grande organismo a quem possa socorrer e, de igual forma, ser socorrida, perenizando-se.
Para tanto, as autoridades castálicas mostram-se bem informadas sobre a discreta via de acesso à cúpula da Igreja, vereda representada pelos monges beneditinos do Rochedo Santa Maria, ou melhor, um deles, em particular: Ir. Jacobus. Mais que isso, a hierarquia castálica demonstra trabalhar empenhadamente para atingir a meta traçada, apesar do malogro da primeira tentativa, anterior a José Servo, ou ainda do tempo gasto nessa espécie de manobra política – Servo leva cerca de três anos para alcançar o intento.

Visão unívoca e olhar pluralista de duas ordens

Constitui-se ponto-chave para esta leitura unir coordenadas esparsas em O jogo das contas de vidro objetivando-se chegar a um quadro de representação expressiva e correspondente do concebido tanto para Castália como para a Abadia do Rochedo Santa Maria. Iniciando-se por quem organiza a estória e a apresenta sob seu ponto de vista, o narrador, cabe dizer que esta personagem ficcional se revela castálica pela conjugação verbal presente no texto, ou seja, ao se referir à Ordem existente em Castália, o narrador usa a primeira pessoa do plural. Além disso, ele dá ares de narrador onisciente, pois parece dominar o universo ficcional apesar de, segundo relata, basear-se totalmente em esparsos documentos dos arquivos do jogo de avelórios e se situar no tempo posterior aos acontecimentos que conta (JCV, p. 1).
Perfilando-se as principais características da Ordem voltada à erudição, isto é, a castálica, cabe principiar pela apresentação da rígida e bem delineada hierarquia desde seus primeiros estágios, como comenta o Mestre de Música, quem examinou Servo e aprovou o ingresso deste na Província Pedagógica: “A nossa Castália não deve ser apenas um lugar de seleção, mas antes de tudo uma hierarquia, um edifício em que cada pedra só recebe seu sentido por pertencer ao conjunto” (JCV, p. 58). Dentro dessa estrutura, encontram-se membros adultos – formados e envolvidos na docência ou na pesquisa, estes “[...] em atividades de pura erudição” (JCV, p. 42) – bem como notáveis jovens alunos – “[...] os mais belos talentos em todas as regiões e escolas do país10  [...]” (JCV, p. 40). Dentre as regras mais básicas, a obediência irrestrita consta taxativamente, como esclarece ainda o Mestre de Música:

Dentro da Hierarquia, ele [o aluno aspirante a Ordem] deixa sempre que o coloquem no lugar e na função escolhidos para ele pelos seus superiores – caso as coisas não se passem ao contrário e sejam as qualidades, o talento e os erros do aluno que obriguem os professores a colocá-los [sic] nesse ou naquele lugar” (JCV, p. 49).

E, nas palavras do narrador, abstinência sexual e desapego material também vigoram: “[...] [os castálicos] subordinam-se durante toda a sua existência às regras da Ordem, de que faz parte, entre outras, a renúncia aos bens materiais, [sic] e o celibato” (JCV, p. 41).
No tocante a mística, há lugar reservado ao cultivo diretamente espiritual, como de se esperar, dentro da proposta de “espiritualidade intelectual-estética” (JCV, p. 127). Conforme o narrador, “A técnica e o exercício da contemplação era comum a todos os membros da Ordem e das Ligas do Jogo [de Avelórios] pertencentes às Escolas da Elite, onde esses membros se dedicavam com o máximo cuidado à arte de contemplar e meditar” (JCV, p. 23). Abstinência de álcool (JCV, p. 130) e jejum também se fazem presentes, sendo este praticado em preparação a grandes celebrações rituais, como o anual “Ludus sollemnis”, a solenidade do Jogo de Avelórios (JCV, p. 158), ou ainda outras ocasiões de cunho místico: “Duas vezes vamos encontrá-lo [Servo] em Terramil, sede da Direção da Ordem, como participante da “grande prática”, os doze dias de jejum e meditação” (JCV, p. 91, destaque do autor).
Feito isso, cabe registrar, agora de maneira mais detida e precisa, uma percepção possivelmente instigante que por certo têm em comum leitores atentos da obra hessiana em estudo além de conhecimentos em estrutura eclesial: a Ordem castálica possui sensível semelhança com certos organismos católicos que figuram entre os denominados oficialmente de institutos de vida consagrada.11 São eles espécies de famílias religiosas cujos membros vivem em comum, sob juramento (votos) e dedicando-se a uma missão ou trabalho específico que consideram seu foco.
Não menos curioso pode ser o fato de tais similitudes se mostrarem voltadas mais exatamente para a mimese de um mosteiro característico da Ordem de São Bento, esta de identidade católico-romana, com cerca de 1500 anos de existência, cujos membros são comumente chamados de beneditinos e vivem em comunidades semi-enclausuradas dirigidas por um abade (do grego, pai) eleito entre eles próprios. Consideram-se filhos espirituais de Bento de Núrcia,12 organizador do monaquismo ocidental, adotando por guia de conduta a minuciosa regra de vida escrita por ele, a quem chamam de patriarca (LEMAÎTRE; QUINSON; SOT, 1999, p. 59).
Adentrando-se no panorama sociopolítico, o trabalho desenvolvido pelos monges, posto ao lado do progresso espiritual – daí o dístico dual Ora et Labora (latinismo, reza e trabalha) –, fizeram os mosteiros beneditinos transformaram-se em centros de resguardo da cultura humana, salvaguardando bibliotecas, mantendo escolas e desenvolvendo e registrando até mesmo técnicas agrícolas em tempos rudes ou belicosos. Enfim, como comenta Mircea Eliade e Joan Couliano (1992, p. 227, tradução nossa), “[...] Bento cria centros relativamente protegidos cujo propósito, em última instância [...], será o de cultivar as elites intelectuais capazes de florir não apenas quando as condições externas mostrarem-se as mais favoráveis.”
Na ficção romanesca de Hesse, a Abadia do Rochedo Santa Maria – que a versão portuguesa do Brasil toma por “convento”13 – é cenário no qual se desenrolam dois capítulos da estória, intitulados “Duas Ordens” (JCV, p. 108-133) e “A missão” (JCV, p. 134-157). Sob aspectos também dados pelo narrador inominado, a comunidade beneditina criada na estória conta com hierarquia definida, indo do noviço Antão ao abade Gervasius,14 que podem lembrar, por contraste, a iniciação e plenitude na Ordem. A erudição parece residir ou resistir15 na imagem da “imensa biblioteca de teologia da Idade Média” (JCV, p. 116) e de Ir. Jacobus, “o mais competente historiador da Ordem dos beneditinos” (JCV, p. 121). Além disso, vigora na Abadia “severa regra de castidade” (JCV, p. 121) e a mística de “um cristianismo praticado diariamente” (JCV, p. 132).
Não obstante o expresso com propriedade por Anatol Rosenfeld (1998, p. 42), que, “Na ficção em geral, o raio de intenção se dirige à camada imaginária, sem passar diretamente às realidades empíricas possivelmente representadas”, a Abadia presente em O jogo das contas de vidro parece tão bem ajustada a um mosteiro beneditino real que talvez seja cabível ainda algum acréscimo.
Apesar do escritor não fazer constar no livro em questão, ao menos de modo explícito, as práticas de rigorosa obediência e algumas abstinências e jejuns como vigília a celebrações litúrgicas importantes também fazem parte da vivência beneditina, como consta na Regra, o documento máximo da Ordem de São Bento. Prescreve tal documento sobre a obediência: “O primeiro grau da humildade é a obediência sem demora. [...] [os bons monges] desconhecem o que seja demorar na execução de alguma coisa, logo que ordenada pelo superior, como sendo por Deus ordenada” (BENTO DE NÚRCIA, 1999, p. 63 – cap. 5, v. 4) e mais: “[...] tudo deve ser feito com a vontade do Abade” (Ibid., p. 243 - cap. 49, v. 10).
Quanto à privação voluntária de alimentos, orienta-se a “Amar o jejum” (Ibid., p. 49 - cap. 4, v. 13) e, referindo-se à Quaresma, um tempo especialmente penitencial, têm-se “dias principais de jejum, que não se possa violar” (Ibid., p. 253 - cap. 53, v. 10). A respeito das bebidas, faz-se o elogio da abstinência alcoólica: “Aqueles, porém, aos quais Deus dá a força de tolerar a abstinência [de vinho, única bebida alcoólica tolerada], saibam que receberão recompensa especial” (Ibid., p. 205 - cap. 40, v. 4) e, no capítulo reservado às piedades quaresmais, prescreve-se “abstinência de comida e bebida” (Ibid., p. 241 - cap. 49, v. 5). Em outras palavras, Castália vai ao encontro de exercícios beneditinos extraficcionais.
Saliente-se que, com tais colocações, não se busca fazer qualquer tipo de batismo de Castália ao catolicismo nem de sugerir uma conversão de Hesse também ao catolicismo pelos inegáveis conhecimentos monásticos do romancista. Aliás, Hesse tinha uma relação complexa com vinculações religiosas. Filho de protestantes ortodoxos e ex-aluno do Seminário Evangélico de Maulbronn, escola para formação de pastores, a herança cristã-pietista lhe causou profundas crises psíquicas ao longo da vida (KUSCHEL, 1999, 129-164). Nas palavras dele, “na juventude, fui obrigado a aceitar por força a verdade cristã de forma inadequada” (HESSE apud GELLNER, 2011, p. 2, tradução nossa).
Diante disso, poder-se-ia questionar, muito a propósito, se essas equivalências inter ordines não se deram como que por mera coincidência ou, até mesmo, por influências sofridas por Hesse, ainda que sob meios não premeditados – uma admiração pelo monaquismo, por exemplo, ou o fato do seminário de Maulbronn estar sediado nos prédios do que fora um mosteiro medievo –, havendo então a existência de um autor-implícito. Todavia, no próprio romance há resposta justamente para tal inquirição.
Passadas as primeiras dezenas de páginas, o leitor se depara com uma classificação explicita que adjetiva Castália como “uma comunidade monacal” (JCV, p. 42). Soma-se a isso, em especial, um dos vários colóquios entre Ir. Jacobus e José Servo, quando há uma ratificação dessa noção. No livro, como não poderia deixar de ser, o beneditino critica duramente o que via como aspecto arremedador por parte de Castália: “[...] uma imitação das congregações cristãs, e no fundo uma imitação sacrílega, já que a Ordem castálica não tinha por fundamento nenhuma religião, nenhum Deus ou igreja” (JCV, p. 123-124). Expressando-se também sobre o que se constitui como um sacrário, o tabernáculo castálico, isto é, o jogo de avelórios, na mesma linha de combatibilidade, declara o monge a Servo:

O vosso mais excelso mistério e símbolo é também uma brincadeira, um jogo, o Jogo de Avelórios. Reconheço que vós tentais elevar esse bonito Jogo a uma espécie de sacramento, ou pelo menos a um meio de edificação da alma. Mas os sacramentos não surgem dessas tentativas, e jogo é sempre jogo. (JCV, p. 144)

O religioso ainda tece muitas outras colocações expressando seu desagrado por certas peculiaridades de Castália que tem por inautênticas. Nesses momentos, o papel de Servo é sempre de ouvinte atento, buscando rebater alguns argumentos do interlocutor e concordando, ainda que silente e meditativo, com outros. Em poucas palavras, tais passagens parecem atestar que Hesse arquitetou tudo isso com perspicácia.

Possibilidade crítica

A tal ponto, cabe trazer presente outro aspecto digno de nota. Não obstante O jogo das contas de vidro dar mostras de reconhecer a tradicional imagem da Ordem de São Bento (macrocosmo) como milenar domus sapientia pelas já citadas figuras, Servo pode estar apontando para a existência de uma quebra desse status ao comentar ou precisar que Santa Maria (microcosmo) “Outrora fora a sede principal da erudição e da arte de discutir escolásticas [...]” (JCV, p. 116, destaque nosso).
Reforça a ideia da descontinuidade o seguinte trecho, agora especificamente sobre Jacobus: “[...] parecia ser o único erudito que trabalhava com real seriedade” (JCV, p. 121), complementado, páginas adiante: “[...] no sentido castálico, esse Convento [Abadia], com exceção do Padre [Ir.] Jacobus, não era nenhum jardim ou exemplo de intelectualidade [...]” (JCV, p. 131).
Some-se ainda a isso, a observação de que os frequentadores da preciosa biblioteca eram “raros” (JCV, p.123) e que a “ingênua superficialidade” (JCV, p. 120) que o abade possuía em alguns assuntos chineses – apesar de justificável a um prelado, cuja preocupação aponta para necessidades outras enquanto dignatário eclesiástico –, tinham-na, em mesmo grau, os então habitantes do mosteiro em relação aos conhecimentos científicos e aparentavam satisfazer-se com isso [!] (JCV, p. 120).
Mencione-se também que, dentro desses registros, o leitor se depara com uma cena na qual o jovem Antão fica admirando Jacobus imerso no labor intelectual, enquanto o silente Servo repara o ocorrido e, conforme o narrador,

[...] veio-lhe [a Servo] um pensamento levemente irônico, que quase o envergonhou: quão diminuto devia ser o número de verdadeiros eruditos nessa instituição, se o único que trabalha com seriedade era olhado pelos jovens como um animal raro e fabuloso. (JCV, p. 122).

Enfim, tendo-se ponderado sobre o assunto, fica o questionamento: a crítica em voga, no pensar de Hesse, seria aplicável, por extensão, a toda a Ordem de São Bento por sua hipotética letargia nos últimos tempos?

Ainda a face orientalista

Ultrapassando o catolicismo, é fato que em O jogo das contas de vidro, pela boca de suas personagens, Hesse cita também o protestantismo com certo respeito, discorrendo sobre o que Jacobus entende como “figuras de valor excepcional” (JCV, p. 124) que estiveram ligadas a este modo de ser cristão; homens como Leibniz, Zinzendorf e sobretudo Bengel. Além disto, o romancista reafirma seus conhecimentos sobre confissões não cristãs, mais devidamente, de origem oriental.
A própria dedicatória do livro em análise, oferecido “Aos peregrinos do oriente”, certamente faz conexão com um romance anterior de Hesse, Siddhartha (1922). Nesse livro, o sacerdote brâmane Sidarta, que empresta seu nome ao título da estória, deixa a casa paterna objetivando partir em busca da sabedoria. Para tanto, segundo Kuschel (1999, p. 149) “[...] Hesse utiliza seus muitos anos de estudo sobre filosofia e religião da Índia [...]”, estando incluída a leitura de clássicos espirituais como Bhagavad-Gita, Tao-Te-King e Diálogos de Confúcio (KUSCHEL, 1999, p. 142), além de sua detida visita in loco à Índia, “onde vivera asceticamente” (SANTOS, 1946). Quanto a viagens à Índia, convém dizer que os pais de Hesse lá estiveram com a intenção missionária de propagação da fé cristã. O autor, no extremo-oposto a isso, ao invés de tentar converter alguém a algo, bebe nas águas da religiosidade hindu.
O que parece destacável é que Hesse consegue incutir, dentro dos próprios beneditinos, um pouco mais do que admiração e respeito pelo conjunto das crenças do Oriente. Contudo, talvez o mais intrigante, sem fazê-los entrar em choque com a sua catolicidade de monges. O abade Gervasius, por exemplo, dá mostras de ser signo de ecumenismo mesmo em tempos anteriores ao Concílio Vaticano II (1962-1965), nos quais, salvo particularidades, a Igreja não se mostrava aberta a questões desse tipo. É excerto do romance:

Sucedeu então que um belo dia, no decorrer de uma conversa com o Abade, sem querer escapou-lhe [de Servo] dos lábios uma alusão ao I Ching chinês; o Abade ouvi-o, fez algumas perguntas, e ao perceber inesperadamente que seu hóspede tinha grande prática no chinês e no Livro das Metamorfoses, não pôde esconder sua alegria. [...] sua conseqüência foi um pedido a Servo para ministrar a esse venerando senhor, duas vezes por semana, uma aula de I Ching. (JCV, p. 119- 120)

E Servo, de fato, ensina a Gervasius. No entanto, concentra o estudo não no idioma, porém em outros aspectos orientais: “Não ensinava a língua chinesa ao Abade Gervasius, mas a manipulação das varetas de aqüilégias, e um método aperfeiçoado de meditar sobre as sentenças do Livro dos Oráculos” (JCV, p. 130). Na segunda temporada no Rochedo Santa Maria, o protagonista do romance reúne-se várias vezes com o abade para colóquios sinológicos, ou seja, tratar sobre história, língua e escrita das instituições e dos costumes chineses (JCV, p. 151).
Ir. Jacobus, por sua vez, homem de ciência, também exterioriza sua admiração por valores orientais, como quando se refere a pontos que o atraíram para seu trabalho como historiador: “O que me atraiu na história não foi a gritaria aguda de Ágora, mas tentativas como a dos pitagóricos ou da academia platônica, ou entre os chineses a longa existência do sistema confucionista [...]” (JCV, p. 129).

Conclusão

Buscou-se aqui compartilhar algumas elucubrações sobre O jogo das contas de vidro, livro a respeito do qual se tem comentado pouco em língua portuguesa, ainda que, fruto de 11 anos (1932-1943) de trabalho de Hermann Hesse (2011, s.p.), integre a literatura clássica (KUSCHEL, 1999, p. 129) e deixe transparecer maior equilíbrio e serenidade por parte do romancista (Ibid., p. 161). Mas é preciso complementar dizendo que a unidade analítica deste artigo abarca apenas um dos inúmeros aspectos passíveis de leitura acadêmica sobre o referido romance: semelhanças entre o religioso e o não sacro.
Concentrando-se em dois capítulos da obra nos quais a temática aqui discutida consta mais expressivamente, tomou-se outros trechos que complementam aquelas partes ou ajudam a entendê-las. Tais associações levaram a uma espécie de quadro comparativo da aproximação entre a Ordem beneditina e a castálica. Elencando os itens de tal quadro de modo pontual, são eles: estrutura hierárquica, obediência, castidade celibatária, comedimento material, privação temporária ou contínua de certos alimentos e bebidas e, o que se sobressai, vivência espiritual.
Todavia, o leitor criterioso pôde perceber que, apesar de os mesmos pontos elencados terem sido desenvolvidos sobre ambas as Ordens, foram eles trabalhados aleatoriamente por peculiaridades do discurso textual que, conforme o que se ia glosando, como que chamava melhor a si este ou aquele ponto. Além disso, faz-se mister expor que a abordagem da Ordem beneditina alongou-se um pouco mais que a da castálica pelo fato de naquela, além das características ficcionais, ter-se comentado alguns aspectos dos beneditinos enquanto coletividade do plano real.
Como certamente se depreende deste escrito, a possibilidade de confluências entre áreas a priori heterogêneas como a teologia e a literatura vem mostrando suas possibilidades e razão de ser, pois, muitas vezes discreto ou coberto como que por um véu, o teológico mostra habitar a literatura.


NOTAS

1. “Música do cosmos, música dos mestres,/Estamos prontos a ouvir com respeito,/A conjurar para uma casta festa/Venerandos espíritos de abençoados tempos” (original alemão de HESSE, Hermann. Das Glasperlenspiel. Zurich: Suhrkamp, 1962 e versão portuguesa de HESSE, 1971, p. 364.).

2. “Escuta, filho, os preceitos do Mestre, e inclina o ouvido do teu coração; recebe de boa vontade e executa eficazmente o conselho de um bom pai [...]” (original latino e versão portuguesa de BENTO DE NÚRCIA, 1999, p. 2 – Prologus, v. 1.).
  
3. Escritor e aquarelista - 1877 (Calw, Alemanha) a 1962 (Montagnola, Suíça).

4. Doravante o título do livro em análise será representado pela sigla JCV e, havendo citação dele, a referência acrescentará à convencionada redução apenas a paginação, tomando invariavelmente por base: HESSE, Hermann. O jogo das contas de vidro: ensaio de biografia do Magister Ludi José Servo, acrescida de suas obras póstumas. Trad. Lavinia A. Viotti e Flávio V. de Souza. 12. ed. Rio de Janeiro: Ed. Record, 1971.

5. Apesar de não conterem relações diretas entre si, as obras citadas apenas sinalizam que a guerra não estancou a produção literária além de dar exemplo de livros escritos durante o combate.

6. Estabelece José Geraldo Nogueira Moutinho em seu Prefácio à edição em língua portuguesa do romance, sem maiores explicações: “[...] a Castália aqui descrita é espaço para episódios sucedidos no ano de 2.200 [...]” (JCV, p. IX).

7. Além desse sentido etimológico, um outro, explicitado no próprio livro (JCV, p. 20), parece bem completar a significação do topônimo Castália, caracterizando-a como sede de uma casta.

8. Local onde se estabelece e se abriga uma comunidade religiosa monástica, de identidade católico-romana, cujos habitantes são designados por monges.

9. Aliás, em cujo rol pontifício constam cerca de duas centenas de papas oriundos do monaquismo, sobretudo da Ordem de São Bento (Cf. FISCHER-WOLLPERT, Rudolf. Léxico dos papas: de Pedro a João Paulo II. Trad. Antônio E. Allgayer. Petrópolis: Vozes, 1991).

10. O Estado é aludido algumas vezes, como esta, e dele enumera-se algumas poucas características, como “montanhoso” (JCV, p. 40), porém seu nome não chega a ser mencionado.

11. Nomenclatura empregada na Seção I, cân. 573-607 do CODEX IURIS CANONICI/ CÓDIGO DE DIREITO CANÔNICO. Trad. CNBB. 12. ed. revista e ampliada. Ed. Loyola, 2003. Ed. bilíngue.

12. Cerca de 480 (Núrcia-Itália central) a 547 (Monte Cassino-Lácio).

13. A tradução que se obteve acesso, uma das únicas encontradas em língua portuguesa, utilizada ainda em edições brasileiras recentíssimas, parece falha em alguns pontos. Em se tratando de vocabulário religioso, por exemplo, além do referido, emprega o designativo “padre” onde beneditinamente se usaria o título dom (cerimonial) ou irmão (comum); chama de “quarto” o que se designa monacalmente de cela. Conhecendo-se o léxico beneditino em língua portuguesa, optou-se, neste trabalho, pelo uso vocabular mais adequado.

14. Hesse mostra-se atento na escolha do nome de cada monge que, como na tradição beneditina real, foram tomados dentre célebres varões da própria Ordem religiosa, que soma alto número de canonizados.

15. A próxima seção explicará o porquê deste termo.


REFERÊNCIAS

BENTO DE NÚRCIA. Regula Sancti Benedicti/Regra de São Bento. Trad. D. João E. Emout, OSB. 2. ed. Juiz de Fora: Mosteiro da Santa Cruz, 1999. Ed. bilíngue.

CRISTIANESIMO. In: ELIADE, Mircea; COULIANO, Joan P. Religioni. Milano: Ed. Jaca Book, 1992. (Enciclopedia tematica aperta).

GELLNER, Christoph. Fra riverenza e ribellione: Hesse e l’ambivalenza della religione. Disponível em: <http://www.hermann-hesse.de/it/biographie/ religion/religion.pdf>. Acesso em 22 mar. 2011. Calwer Hermann-Hesse-Preis (site oficial).

HESSE, Hermann. O jogo das contas de vidro: ensaio de biografia do Magister Ludi José Servo, acrescida de suas obras póstumas. Trad. Lavinia A. Viotti e Flávio V. de Souza. 12. ed. Rio de Janeiro: Ed. Record, 1971.

______. Autobiography. NOBEL PRIZE. The Nobel Prize in Literature 1946: Hermann Hesse. Disponível em: <http://nobelprize.org/nobel_prizes/ literature/laureates/1946/hesse.html>. Acesso em: 10 mar. 2011.

KUSCHEL, Karl-Josef. Os escritores e as escrituras: retratos teológico-literários. Trad. Paulo Astor Soethe et ali. São Paulo: Ed. Loyola, 1999.

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FONTE:
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