EXCERTOS DO TRATADO
DAS ENÉADAS, de PLOTINO
Os títulos entre
parênteses são os originais de cada enéada.
Sobre a morte
(Sobre
o primeiro Bem e os outros bens)
Se
até a nossa vida – que está mesclada de mal – é um bem, por que a morte não é
um mal? Um mal para quem? É preciso haver um sujeito passível de sofrer o mal;
então, se tal sujeito [o corpo] não está mais entre os seres e está privado de
vida, não há mal algum para ele, como não há mal algum para uma pedra. Mas se a
vida e a Alma existem após a morte, então a morte é um bem para a Alma, uma vez
que, sem o corpo, ela tem mais liberdade para exercer o ato que lhe é próprio. Se
ela passa a participar da Alma universal, que mal pode atingi-la ali? Assim como
os deuses possuem o bem isento de qualquer mal, o mesmo corre com a Alma que
preserva sua pureza. Se não a preserva, não é a morte que é um mal para ela,
mas sim a vida; e se ela é punida no Hades por não ser pura, mesmo lá o mal é a
[continuidade] da vida – e não a morte. Aliás, se a vida é a união de uma alma
e um corpo, e a morte é sua separação, então a Alma se sentirá em casa tanto na
vida como na morte. No entanto, no caso de uma vida virtuosa, como a morte pode
não ser um mal? Neste caso, a vida é um bem: porém, não pelo fato de ser a união
de uma alma e um corpo, mas por repelir o mal mediante a virtude – e então a
morte é um bem ainda maior. Ou seja, a vida no corpo é em si mesma um mal, mas
a Alma participa do Bem pela virtude: não vivendo uma vida composta [com a do
corpo], mas mantendo-se apartada dele, mesmo aqui.
(PLOTINO, 2000,
p. 41)
Dialética
(Sobre
a Dialética)
Mas
então a filosofia não é a mais preciosa entre as ciências? A filosofia e a
dialética são a mesma coisa? A dialética é a parte mais nobre da filosofia. Não
se deve pensar que ela seja apenas uma ferramenta empregada pelo filósofo, que
seja apenas um conjunto de teorias e regras. Ela diz respeito a realidades, e
sua matéria são os seres. Ela se aproxima deles metodicamente e apreende as
teorias e as realidades. Ela só conhece a falsidade e o sofisma acidentalmente:
não por sua própria natureza, mas como algo produzido exteriormente a ela, algo
que reconhece como estranho à verdade que ela contém: conhece o erro quando uma
afirmação contrária à regra do verdadeiro lhe é apresentada. Ela ignora a
teoria das proposições, que para ela não passa de um amontoado de palavras; mas
conhece a verdade e, nesse conhecimento, conhece o que as escolas chamam de
proposições. Conhece acima de tudo a operação da alma, e, devido a esse
conhecimento, também conhece: a proposição afirmativa e a negativa; a regra: se
se nega [o consequente], coloca-se [o contrário do antecedente] e outras regras
análogas; ela sabe se os termos são diferentes ou idênticos; mas tem todos
esses conhecimentos de maneira tão imediata quanto aquela em que os sentidos
percebem as coisas, mas deixa os detalhes de linguagem para outra disciplina
que encontra satisfação neles.
(PLOTINO, 2000,
p. 50)
Inteligência
(Sobre a
descida da Alma nos corpos)
O
uno é todas as coisas e não é nenhuma delas. Ele é o princípio (arché) de todas as coisas; e, se não é
nenhuma delas, no entanto é todas as coisas de um modo transcendente, pois, de
certo modo, elas estão no Uno. Ou melhor, nem todas estão nele, mas estarão.
Então, como todas as coisas provêm do Uno, que é simples e não tem em si
multiplicidade alguma e nem mesmo dualidade alguma? É pelo fato de nada haver
nele que todas as coisas provêm dele. Pra que o Ser possa existir, o Uno não é
Ser, mas sim o gerador do ser. Podemos dizer que este é o primeiro ato da
geração: nada possuindo e nada buscando em sua perfeição, o Uno transbordou e
sua superabundância produziu algo diverso dele mesmo. O que foi produzido
voltou-se de novo para a sua origem e, contemplando-a e sendo por ela
preenchido, tornou-se a Inteligência. O ato de ter-se detido e voltado para o
Uno deu origem ao Ser; o ato de ter contemplado o uno deu origem à
Inteligência. O ato de ter-se detido e se voltado para o Uno a fim de
contemplá-lo tornou-o simultaneamente Ser e Inteligência. Desse modo,
tornando-se semelhante ao Uno por contemplá-lo, repetiu o ato do Uno e emitiu
um grande poder.
Esse
segundo transbordamento, o da essência da Inteligência, é a Alma, que veio
assim à existência, mas a Inteligência permaneceu inalterada. A Alma surgiu
como uma ideia e um ato da Inteligência imóvel – que também proveio de uma
origem [o Uno] que permaneceu imóvel e inalterada –, mas a operação da Alma não
é imóvel, pois ela gera a sua própria imagem [ou hipóstase] pelo movimento: a
contemplação do que lhe deu origem e preenche e, empreendendo um movimento no
sentido contrário [descendente], ela gera a sua imagem [ou hipóstase]. Essa
imagem da Alma são os sentidos e o princípio vegetativo.
No
entanto, nada se separa completamente do que o antecede. Portanto, a Alma mais
elevada parece chegar até o princípio (arché)
vegetativo – o que, de certo modo, de fato ocorre, pois a vida vegetativa está
em seu âmbito, mas ela [a Alma mais elevada] não está totalmente presente ali.
Em sua descida, quando ela chega ao princípio vegetativo – por sua
exteriorização e sua tendência ao bem menor –, produz outra hipóstase ou modo
de ser, do mesmo modo que a Alma superior é produzida pela Inteligência, que
permanece imperturbável em si mesma.
(PLOTINO, 2000,
p. 63-64)
Nous
(Sobre a
descida da Alma nos corpos)
O
Mundo Arquetípico é a verdadeira Idade de Ouro, Idade de Kronos, o deus que é a
abundância e o princípio Intelectual (nous).
Pois ele [Kronos] contém tudo o que é imortal: todas as inteligências, todos os
deuses, todas as almas. Nele, todas as coisas permanecem imutáveis para sempre,
pois por que buscariam mudança se ali tudo está bem? Aonde buscariam ir, se têm
tudo em si mesmas? Que crescimento buscariam, se são perfeitas? Todas as coisas
nele são perfeitas para que ele possa ser totalmente perfeito (teleios), nada havendo nele que não seja
divino, nada que não seja intelectivo. Ele alcança o seu conhecimento não como
alguém que busca, mas como alguém que possui; sua bem-aventurança não é
adquirida, mas inerente: todas as coisas pertencem a ele eternamente, pois nele
está a verdadeira eternidade, que é copiada pelo tempo, circulando ao redor da
Alma e fazendo com que algumas coisas venham [ao tempo] e outras permaneçam [no
Mundo Arquetípico].
(PLOTINO, 2000,
p. 74-75)
Experiência pessoal
(Sobre a
descida da Alma nos corpos)
Muitas
vezes ocorreu-me ser retirado de meu corpo e conduzido a mim mesmo; ser
retirado das coisas externas e introduzido em mim mesmo; e então ver uma Beleza
maravilhosa, tornando-se ainda maior a certeza de que pertenço à ordem superior
dos seres por ter realizado em ato a mais nobre forma de vida; ter-me
identificado com a divindade; ter-me estabelecido nela; ter vivido o seu ato e
me situado acima de tudo quanto é inteligível, exceto o Supremo. No entanto,
depois dessa estadia na região divina, quando desço da Inteligência ao
raciocínio, pergunto-me perplexo como é possível a minha Alma estar neste
corpo, sendo ela, mesmo estando no corpo, essa coisa elevada que se revelou a
mim?
(PLOTINO, 2000,
p. 81)
Esta
é a única passagem das Enéadas onde
Plotino fala de sua própria experiência. Descreve-a mais em detalhe na parte
final do tratado Sobre o Bem ou o Uno
(p. 134-135), mas sem dizer que está falando da sua própria vivência. Segundo
Porfírio, ao longo de sua vida Plotino teve quatro experiências extáticas: por
quatro vezes saiu de si e ascendeu a Deus, ao Uno.
SOMMERMAN, Américo. Nota 1 da Enéada Sobre a
descida da Alma nos corpos. In: PLOTINO. Tratado
das Enéadas. Américo Sommerman (tradução, apresentação, introdução e
notas). São Paulo: Polar Editorial, 2000 , p. 81.
O homem, caído
(Sobre a
descida da Alma nos corpos)
Diz
[Platão] que a Alma “está acorrentada” e “sepultada” nele [no corpo],
qualificando como uma grande verdade a doutrina exposta nos mistérios de que
aqui a Alma “está numa prisão”. Ademais, a meu ver, a “caverna” para ele, assim
como o “antro” para Empédocles, significam este mundo [sensível], pois Platão
interpreta “a libertação das cadeias e a subida para fora da caverna” como a jornada da Alma em direção ao
Mundo Inteligível. No Fedro ele
atribui à queda das asas sua descida a este mundo. Além disso, para ele há
“períodos cíclicos” nos quais a Alma que ascendeu tem de voltar aqui para
baixo, enquanto outras são trazidas para cá devido a julgamentos, a azares, a
fatalidades e a necessidades.
(PLOTINO, 2000, p.
82-83; colchetes nossos)
Alma escrava
(Sobre a
descida da Alma nos corpos)
Nada
disso ocorreria [a alma ocupar-se de prazeres, apetites e sofrimentos e
descurar dos intelectivos da Alma] se as almas não entrassem profundamente nos
corpos; se não fossem escravas e sim soberanas deles, de maneira a não terem
necessidades, a não terem deficiência alguma, a não se encherem de apetites e
nem de temores. Desse modo, não haveria razão alguma para a Alma temer o
comércio com um corpo, pois não haveria ocupação alguma que desviasse sua atenção
para baixo e a distraísse de sua sublime e bem-aventurada contemplação, mas
estaria sempre voltada para o Supremo e governaria este mundo com uma força
serena.
(PLOTINO, 2000, p.
86; colchetes nossos)
Inferioridade
(As três
hipóstases iniciais)
Admirar
e buscar uma coisa significa inferioridade em relação a ela. Portanto, quem se
considera inferior às coisas que nascem e morrem, e mais vil e mortal do que as
coisas que admira, não pode ter ideia alguma a respeito da natureza e do poder
de Deus.
Aqueles
que querem seguir o caminho contrário, que querem retornar à sua origem – isto
é, ao Supremo e ao Uno –, devem considerar duas coisas. E quais são elas? Devem
primeiro considerar o quanto as coisas que a Alma agora precisa são desprovidas
de valor. [...] A segunda coisa que devem considerar é a origem e a dignidade
da Alma. E esta consideração é mais importante do que a primeira, pois quando é
exposta com clareza, faz com que a primeira se torne óbvia.
(PLOTINO, 2000,
p. 70)
Por que a alma encarna?
(Sobre a
descida da Alma nos corpos)
Portanto,
é possível conciliar estas contradições aparentes: a semeadura das almas no
mundo do devir para o aperfeiçoamento do Universo concilia-se com o castigo e a
caverna; a necessidade, com a livre escolha; a descida voluntária, com a
involuntária. Na verdade, a necessidade da encarnação num corpo inclui a
escolha. A doutrina de Empédocles sobre a descida das almas como um afastamento
de Deus, como uma punição do pecado, pode ser conciliada com a doutrina de
Heráclito de que a Alma “mudando [de lugar] descansa”.
Todo
aquele que desce a algo inferior faz isto involuntariamente; porém, se desce
devido a uma vontade própria, a submissão ao inferior pode ser qualificada como
um castigo por seus atos. Por outro lado, quando tais atos e experiências são
determinados por uma lei eterna da natureza: a de abandonar o que está acima a
fim de auxiliar alguma coisa [que está a baixo], não há inconsistência em dizer
que foi Deus quem enviou a Alma pra baixo. Os resultados finais sempre têm de
ser relacionados com o ponto de partida, mesmo que tenha havido muitas etapas
intermediárias.
Além
disso, há dois tipos de punição: um pela própria descida da Alma; outro, pelo
mal que ela faz estando aqui embaixo. O primeiro é o próprio sofrimento que a
Alma sente pela descida. O segundo, por sua vez, também se divide em dois
tipos: a menor punição é entrar sucessivamente em outros corpos logo em seguida
ao julgamento de suas ações (e a palavra “julgamento” indica que isso ocorre
por decreto divino); já as grandes maldades levam a punições proporcionalmente
maiores, que são infligidas pelos demônios punidores.
(PLOTINO, 2000,
p. 90)
Parte da alma fica na região sensível
(Sobre a
descida da Alma nos corpos)
E,
se é preciso ter a ousadia de expressar mais claramente uma convicção contrária
à opinião da maioria, tenho de dizer que nem mesmo a nossa Alma humana entra
inteiramente no corpo, mas há algo nela que sempre permanece na região
inteligível. Porém, se quem domina é a parte da alma que está na região sensível
e aquela outra se deixa dominar e perturbar, tornamo-nos cegos ao que contempla
a parte superior da alma, pois o que é por ela interligado [ou contemplado] só
pode chegar a nós se desce até a nossa consciência. Nem tudo o que ocorre em
qualquer parte da Alma é logo conhecido por nós, pois para que tal conhecimento
se dê, a coisa tem de estar presente para a Alma inteira: um apetite limitado à
faculdade apetitiva permanece desconhecido para nós, a menos que seja
apreendido pela faculdade do sentido interior, pela razão discursiva (dianoia) ou por ambas. Pois toda Alma
possui um elemento de sua parte inferior voltado para o corpo e um elemento de
sua parte superior voltado para o Mundo Inteligível. Assim, a Alma universal
governa o Mundo [Sensível] com a parte dela que está voltada para o corpo, sem
deixar de permanecer em repouso, pois não o governa com a razão, como nós, mas
com um ato puramente intelectual, como o da criação artística, de modo que
apenas sua parte inferior age sobre o Mundo [Sensível], mantendo-o belo e em
ordem.
(PLOTINO, 2000,
p. 94-95)
Apeiron
(Sobre o
Bem ou o Uno)
Portanto,
devemos considerá-lo [o Uno] como infinito (apeiron):
não em sua incomensurável extensão ou inumerável quantidade mas na dimensão
inconcebível do seu poder. Pois, se penas nele como Inteligência ou como Deus,
ele é mais. E, ademais, se em teu pensamente pensas n’ele como Uno, também
nesse caso, por mais Uno que o tenhas imaginado, ele é mais que isso. Pois ele é em si mesmo, sem que nenhum predicado
lhe possa ser atribuído. Com efeito, essa auto-suficiência é a essência de sua
Unidade. É necessário que haja uma realidade que seja entre todas a mais
independente, a mais auto-suficiente, a mais desprovida de necessidade. Pois tudo
o que é múltiplo, tudo que está abaixo da Unidade está na necessidade: como o múltiplo
é constituído de partes, sua natureza aspira sempre à Unidade. Quanto ao Uno,
ele não pode ter necessidade de si, pois já é uma Unidade perfeita. Por sua
vez, o que é múltiplo depende te doas as suas partes. Além disso, todas as
partes que estão contidas nele estão ligadas umas às outras e não apenas
consigo mesmas: por isso, elas têm necessidade umas das outras. Assim, esse ser
está na necessidade tanto em suas partes como em seu conjunto.
Portanto,
se é verdade que é preciso que haja algo que seja totalmente auto-suficiente,
tem de ser o Uno, posto que ele é o único a ter uma natureza tal que é
desprovida de necessidade tanto em relação a ele mesmo como em relação aos
outros. Pois ele não busca algo para ser, nem para estar bem, nem para
encontrar apoio. Sendo causa para todas as outras realidades, não é delas que
provém a sua.
Quanto
ao “estar bem”, que bem-estar teria fora de si mesmo? Por isso, o bem-estar não
é acrescentado a ele como um predicado, pois o seu bem-estar é ele mesmo.
(PLOTINO, 2000,
p. 132-133; colchetes nossos)
O Princípio não depende de nada
(Sobre o
Bem ou o Uno)
Um
princípio (arché) não tem necessidade
das coisas que vêm depois dele. Portanto, o Princípio de todas as coisas não tem
necessidade alguma de todas as coisas, pois o que está na necessidade está nela
por desejar o Princípio. Então, se o Uno tivesse necessidade de algo, buscaria,
é claro, deixar de ser Uno, de modo que teria necessidade daquilo que o
destruiria. Porém, tudo o que está na necessidade, tem necessidade do
bem-estar, e daquilo que o mantém. De modo que, para o Uno, não há bem, nem
vontade de algo: Ele está além do Bem, e não é o Bem para si mesmo, mas para os
outros, se algo for capaz de participar d’ele.
E
para ele não há pensamento, para que não haja n’ele alteridade nem movimento. De
fato, se ele é anterior ao movimento e ao pensamento, no que ele poderia
pensar?
(PLOTINO, 2000,
p. 133)
Contemplação
(Sobre o
Bem ou o Uno)
E
se, por ele não ser nenhuma dessas coisas [existentes no mundo sensível], teu
pensamento cai num estado de indeterminação, mantém-te nesse estado e, a partir
dele, contempla! Mas contempla sem projetar teu pensamento para o exterior! Pois
ele não está em algum lugar, deixando os outros lugares privados d’ele, mas
está sempre presente para quem pode alcançá-lo, e ausente para quem é incapaz
de fazê-lo.
(PLOTINO, 2000,
p. 134; colchetes nossos)
A dança
(Sobre o
Bem ou o Uno)
Com
efeito, sempre circulamos ao seu redor, porém nem sempre olhamos para ele. É como
um coral desarmonioso dançando em roda: embora circulando ao redor do maestro,
às vezes dirige seu olhar para o exterior; mas, se volta a olhar para ele,
torna a cantar bem e a circular ao seu redor. Do mesmo modo, nós também
circulamos sempre ao seu redor; do contrário, seria a nossa destruição
completa, e deixaríamos de existir. No entanto, nem sempre estamos voltados
para ele; mas, quando olhamos para ele, encontramos a nossa meta e o repouso,
e, inspirados por Deus, dançamos ao seu redor em completa harmonia.
(PLOTINO, 2000,
p. 138)
A dança
(Sobre o
Bem ou o Uno)
E
isso [repousar no Uno] é para ela [a Alma] o princípio e o fim. O seu princípio
(arché) porque ela veio de lá; o seu
fim (telos), porque é lá que o Bem
está. E quando chega até lá, torna a ser ela mesma e volta a ser o que foi. Pois,
neste Mundo Sensível, ela está em queda, em exílio e perdeu suas asas.
(PLOTINO, 2000,
p. 140; colchetes nossos)
Aqueles
que ainda não viveram essa experiência podem fazer uma analogia dela com os
amores daqui debaixo: pensem naquilo que amam mais do que tudo neste mundo. Então,
pensem que esses amores pelas criaturas são mortais e caducos, que têm por
objeto apenas reflexos da realidade, pois não são o nosso verdadeiro amor, nem
o nosso bem, nem o que buscamos. O nosso verdadeiro Amado está lá no alto. A ele
podemos nos unir verdadeiramente, participando d’ele, possuindo-o realmente, e não
apenas o envolvendo exteriormente com a nossa carne.
(PLOTINO, 2000,
p. 140-141)
Como alcançar o supremo Bem
(Sobre o
Bem ou o Uno)
Aquele
que se vê nesse estado [cuja Alma está no Ser] torna-se semelhante ao Supremo;
sai de si, passa da imagem ao seu arquétipo, e chega ao fim de sua jornada. Todavia,
mesmo quando decai de tal contemplação, pode despertar de novo tal virtude
meditando na ordem e na beleza interior; e, mediante essas virtudes, recupera a
leveza, torna a alcançar a Inteligência e a Sabedoria, e, mediante a Sabedoria,
o supremo Bem.
Esta
é a vida dos deuses e dos homens divinos e bem-aventurados: ser livre em
relação às coisas deste mundo: viver sem se deleitar nas coisas terrenas;
fugir, na solidão, ao Solitário.
(PLOTINO, 2000,
p. 145; colchetes nossos)
O Universo nada sente
(Sobre o
nosso daimôn)
Com
a parte superior deste, permanecemos no alto; enquanto que, com a parte
inferior [do Mundo Inteligível], somos destinados às coisas daqui debaixo,
difundindo neste mundo uma espécie de emanação, um ato proveniente da parte
inferior do inteligível, mas sem prejuízo algum para a parte superior.
Esse
ato proveniente da parte inferior do inteligível permanece no corpo para
sempre? Não, se nos voltarmos para o alto, ela retornará conosco.
E
a Alma do Mundo? Se ela se voltar para o alto, sua parte inferior também
retornará para lá? Na verdade, a Alma do Mundo nunca tendeu para este mundo
[sensível] com a sua parte inferior, mas permaneceu sempre imóvel; e é o corpo
deste mundo que, aderindo a ela e ajustando-se a ela, é por ela iluminado, sem
a perturbar ou criar-lhe dificuldades.
(PLOTINO, 2000,
p. 154)
Troca de daimôn
(Sobre o
nosso daimôn)
Lemos
que, depois de ter conduzido a Alma ao Hades, o daimôn deixa de ser o seu guardião, a menos que a Alma escolha de
novo o mesmo tipo de vida.
[Pergunta:]
Mas o que ocorre com ela antes disso?
[Resposta:]
Ela é julgada, o que significa que após a morte ela vê o daimôn da mesma maneira que o viu antes da encarnação e então,
antes de começar uma nova fida, ela permanece por um período diante dele sendo
punida antes de começar uma nova vida, período esse que não é propriamente uma
vida, mas uma expiação.
(PLOTINO, 2000,
p. 157)
REFERÊNCIA:
PLOTINO. Tratado das Enéadas. Américo Sommerman
(tradução, apresentação, introdução e notas). São Paulo: Polar Editorial, 2000.
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