segunda-feira, 29 de junho de 2015

INICIAÇÃO E CONTRA-INICIAÇÃO - 2








Por René Guénon

Já dissemos alhures que existe um fenômeno que poderíamos chamar de “contra-iniciação”, ou seja, uma coisa que se apresentaria como uma iniciação e que até mesmo pode dar a ilusão de ser verdadeiramente uma iniciação, mas que segue o caminho inverso da verdadeira iniciação.

Não obstante, comentamos que esta designação exige algumas reservas; o fato é que se tomássemos no sentido estrito, poderíamos criar a crença de uma espécie de simetria, ou por assim dizer de uma equivalência (ainda que no sentido inverso), que, sem dúvida, forma parte das pretensões dos que se ligam a aquilo que tratamos aqui e que não existe e não pode existir na realidade.

Sobre este ponto convém insistirmos especialmente, já que muitos deixam-se enganar pelas aparências, imaginam que há no mundo duas organizações opostas que disputam a supremacia, concepção errônea que corresponde a aquela, que na linguagem teológica, põe Satã no mesmo nível de Deus, e que, com ou sem razão, se atribui comumente aos Maniqueus.

Esta concepção, conforme assinalaremos em seguida, vem a ser o mesmo que afirmar uma dualidade radicalmente irredutível, ou, em outros termos, negar a Unidade suprema que está além de todas as oposições e antagonismos; uma negação assim é tema dos mesmos aderentes a “contra-iniciação” e algo que não nos deve surpreender; mas isso mostra ao mesmo tempo que a verdade metafísica, até nos seus princípios mais elementares, é para eles totalmente estranha e por isso sua pretensão se aniquila sozinha.

Importa-nos assinalar, antes de mais nada, que, em suas próprias origens, a “contra-iniciação” não pode apresentar-se como algo que surgiu de forma independente e autônoma: se houvesse constituído-se espontaneamente, não seria nada mais que uma invenção humana e não se distinguiria assim da pura e simples “pseudo-iniciação”.

Para que seja mais que isso, e de fato ela é, é necessário que, de certo modo, proceda da fonte única que se liga toda a iniciação, e, mais genericamente, a tudo que se manifesta em nosso mundo num elemento “não-humano” procedente dela, se manifestando por uma degeneração que chega até a uma “inversão” que constitui aquilo que podemos chamar propriamente de “satanismo”. Se vê pois que, de fato, se trata de uma iniciação desviada e desnaturada, e que, por isso mesmo, não tem direito de ser qualificada verdadeiramente de iniciação, posto que não conduz ao fim essencial desta, e inclusive faz distanciar o ser dela em vês de aproximá-lo.

Não basta, pois, falarmos aqui de uma iniciação truncada e reduzida a sua parte inferior, como pode ocorrer também em certos casos; a alteração é muito mais profunda; mas há nela, entretanto, como dois estados diferentes num mesmo processo de degeneração. O ponto de partida é sempre uma rebelião contra uma autoridade legítima, e uma pretensão de uma independência que não poderia existir, como tivemos a oportunidade de explicar num outro momento (1); disso resulta imediatamente a perda do contato efetivo com um centro espiritual verdadeiro e, portanto, a impossibilidade de alcançar os estados supra-individuais; e, naquilo que todavia ainda subsiste, o  desvio não poderia ir mais que se agravando seguidamente, passando por graus diversos, para chegar, nos casos extremos, até esta “inversão” da qual acabamos de falar.

Uma primeira conseqüência disto é que a “contra-iniciação”, quaisquer que possam ser as suas pretensões, não é na verdade mais que um beco sem saída, já que é incapaz de conduzir o ser, a mais adiante da condição humana; e é neste estado mesmo, pelo fato de sua “inversão” que a caracteriza, desenvolve modalidades que são as de ordem mais inferiores. No esoterismo islâmico, se diz que quem se apresenta diante de certa “porta”, sem ter chegado a ela por uma via normal e legítima, vê esta porta se fechando diante dele e é obrigado a voltar atrás, porém, não como um simples profano, o que de agora adiante é impossível, mas sim como sâher (bruxo ou feiticeiro). Não poderiam ter expressado com maior nitidez aquilo de que tratamos.

Outra conseqüência, em conexão com a anterior, é que, ao fazer-se quebrada a conexão com o centro, a “influência espiritual” se perde; e isto já basta para que se mostre que aqui não se trata realmente de iniciação, posto que esta, como explicamos anteriormente, está essencialmente constituída pela transmissão desta influência. Não obstante, todavia, há algo que se transmite, sem o qual falaríamos de novo da “pseudo-iniciação”, desprovida de toda a eficácia; mas não se trata mais de que uma influência de ordem inferior, “psíquica” e não “espiritual” e que, abandonada dessa maneira, sem o controle de um elemento transcendente, toma de certo modo inevitavelmente um caráter “diabólico” (2).

É fácil compreender, entretanto, que esta influência psíquica pode imitar a influência espiritual em suas manifestações exteriores, ao ponto de aqueles que se detêm nas aparências chegam a equivocar-se a respeito, pois, a primeira origina-se na mesma ordem de realidade, na qual se produzem estas manifestações (não se diz proverbialmente, e num sentido comparável a este, que “Satã é o imitador de Deus”?); e que a imitam, poderíamos dizer ainda que da mesma forma, os elementos evocados pelo necromante imitam um ser consciente evocado no outro caminho (3).

Este fato, diga-se de passagem, demonstra que alguns fenômenos idênticos entre si, podem diferir completamente em suas causas profundas; e aqui se acha uma das razões pelas quais, do ponto de vista iniciático, convém não conceder nenhum valor a tais fenômenos, porque, quaisquer que fossem, nada podem provar a respeito da questão da pura espiritualidade.

Dito isto, podemos precisar os limites dentro os quais a “contra-iniciação” é suscetível de opor-se à verdadeira iniciação: é evidente que estes limites são os do ser humano com suas múltiplas modalidades; dito de outra maneira, a oposição não pode existir senão no domínio dos “pequenos mistérios”, enquanto que o dos “grandes mistérios”, que se refere aos estados supra-humanos, está por sua mesma natureza além de tal oposição, pois este está inteiramente fechado a tudo o que não é conhecido como verdadeiro na iniciação, segundo a ortodoxia tradicional  (4).

Ao que se refere aos pequenos mistérios, haverá, entre a iniciação e a “contra-iniciação”, esta diferença fundamental: numa, não será mais que uma preparação para os grandes mistérios; na outra, se tornarão forçosamente como um fim em si mesmos, ao estar proibido o acesso aos “grandes mistérios”. Entretanto, podem ter muitas outras diferenças com um caráter mais específico; mas não entraremos aqui nestas considerações, de importância muito secundária do ponto de vista no qual nos situamos e que exigiriam um exame detalhado de toda a variedade de formas que pode se revestir a “contra-iniciação”.

Naturalmente, pode ser que possam constituir-se centros nos quais estarão conectadas as organizações que dependem da “contra-iniciação”; mas se tratará de centros unicamente psíquicos, e não de centros espirituais, ainda que aqueles possam, em razão do que indicávamos mas acima como ação das influências correspondentes, tomar, mais ou menos, completamente suas aparências exteriores.

Por outra parte, não haveria de surpreender-se de que esses próprios centros, e não somente algumas das organizações que lhes estão subordinadas, possam encontrar-se, em muitos casos, em luta uns com os outros, porque o domínio no qual se situam é aquele no qual todas as oposições se dão em livre curso, quando não são harmonizadas e reconduzidas à unidade pela ação direta de um princípio de ordem superior.

Disto resulta, pelo que concerne às manifestações desses centros ou dos que deles emanam, uma impressão de confusão e de incoerência que não é ilusória; eles não se põem de acordo mais que negativamente, e assim se pode dizer, para uma luta contra os verdadeiros centros espirituais, na medida em que estes se mantenham em um nível que permita que uma luta assim ocorra, ou seja, segundo o que acabamos de explicar, no que se refere ao domínio dos “pequenos mistérios” exclusivamente.

Tudo o que se refere aos “grandes mistérios” está isento de tal oposição; e, com maior razão, o centro espiritual supremo, fonte e princípio de toda iniciação, não poderia ser alcançado ou afetado em algum grau por nenhuma luta que fosse (e por isso se lhe chama “inacessível à violência”); isto nos leva, todavia, a precisar  outro ponto que é de uma importância muito particular.

Os representantes da “contra-iniciação” têm a ilusão de opor-se à autoridade espiritual suprema, na qual nada pode opor-se em realidade, pois é bem evidente que então não seria suprema: a supremacia não admite nenhuma dualidade, e uma suposição assim é contraditória em si mesma; mas a ilusão deles vem de que não podem conhecer sua verdadeira natureza.

Podemos ir mais longe: apesar de tudo, sem saber, eles estão, na realidade, subordinados a essa autoridade, do mesmo modo que, como dizíamos precedentemente, tudo está, mesmo que inconsciente e involuntariamente, submetido à Vontade divina, e nada pode subtrair-se disso.

São, pois, utilizados, por mais que não queiram, na realização do plano divino no mundo humano; jogam nele, como todos os demais seres, o papel que convém à sua própria natureza, mas no lugar de serem conscientes deste papel como o são os verdadeiros iniciados, se enganam a si próprios, e de uma forma que é pior que a simples ignorância dos profanos, posto que, no lugar de deixá-los de certo modo no mesmo ponto, esta tem por resultado deixá-los mais longe do centro principal.

Mas, considerando-se as coisas, não com respeito a estes próprios seres, mas sim em relação ao conjunto do mundo, deve-se dizer que, igual a todos os demais, eles são necessários no lugar que ocupam; no entanto, os elementos desse conjunto, e como instrumentos “providenciais”, se diria em linguagem teológica, da marcha do mundo em seu ciclo de manifestação; estão pois, numa última instância, dominados pela autoridade que manifesta a Vontade divina ao dar a este mundo sua Lei, e que o faz servir, apesar disto, para seus fins, devendo concorrer necessariamente em todas as desordens parciais da ordem total.

Mesr, 11 Ramadâ 1351 H. [1933].

NOTAS:
(1). Ver a Autorité spirituelle et pouvoir temporel.

(2). Segundo a doutrina islâmica, é pela nefs (a alma) que Shaitan pode prender o homem, enquanto que pela rûh (o espírito), cuja essência é pura luz, está além de seus ataques; é entretanto por isso porque a “contra-iniciação” em nenhum caso poderia tocar o domínio metafísico, que lhe está proibido pelo seu caráter puramente espiritual.

(3). A este respeito a nossa obra sobre L'Erreur spirite. (4). Se nos tem reprovado não haver tido em conta a distinção entre os “pequenos mistérios” e os “grandes mistérios” quando falamos das condições da iniciação; sucede que esta distinção não tem que intervir; então, já que considerávamos a iniciação em geral, e que de outra parte não há nela, mas que diferentes estados ou graus de uma só e mesma iniciação.

Artigo publicado em “Le Voile d'Isis” e não recopilado posteriormente. Parte do conteúdo foi retomado no Reino da quantidade e os signos dos tempos, cap. XXXVIII.

Se uma Ordem contra-iniciática se aproximasse de você e lhe propusesse filiação, você saberia, à luz desta lição, distingui-la de uma organização séria e identificar os riscos à sua vida?


FONTE: GUÉNON, René. Iniciação e contra-iniciação. Disponível em: < http://rosacruzes.blogspot.com.br/2015/04/iniciacao-e-contra-iniciacao.html>. Acesso em: 29 jun. 2015.

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